
Tudo aconteceu de forma surpreendente e bizarra, digamos assim.
Eu estava sentado no banco da praça Rio Branco ,lendo o jornal e curtindo o sol de setembro. Dez e meia da manhã. De repente, aquele baixote gordinho e careca sentou-se do meu lado. Sabia quem eu era, o que pensava e de onde conseguia dinheiro, o que era uma tremenda desvantagem para mim, visto que meu negócio era comprar produtos roubados, desde rádios para carro, dvd´s players, consoles de games e qualquer coisa que acendesse uma luzinha. Ficavam pouco tempo comigo, logo despachava para a vizinha cidade de Ijuí, onde o proprietário de uma eletrônica, pagava um preço razoável.
Minha rotina era sempre a mesma. Levantava nove horas, saía do hotelzinho infecto que morava há um ano, tomava um cafezinho com pastel no bar Chaplin, que ficava em frente ao moquifo. Depois, passava na banca de revistas e comprava o Correio do Povo. Procurava um banco na praça que me permitisse aproveitar o sol e ali ficava até às onze e meia,olhando a movimentação de pessoas e carros e fazendo um ou outro contato com meus fornecedores. A escória que circulava na praça era a de praxe. Prostitutas em fim de carreira, dispostas a engambelar algum aposentado que saísse do banco do Estado, gigolôs e vigaristas que sobreviviam com um golpezinho aqui, outro ali.
- Desembucha, o que tu queres? Indaguei ao baixote.
-Nada que não possas me dar. Quero tua vida, do início ao fim.
Não entendi porra nenhuma.
-Olha só, meu negócio é mulher. Vaza.
-Não é tão simples assim. Não entendeste. Tua hora chegou. Eu sou a morte e tenho te acompanhado todos os dias da tua existência. Deixei que vivesse e fizesse tuas escolhas, que, aliás, não foram muito felizes. Azar. Não costumo fazer concessões.
-Rá rá rá! Se realmente fosses a morte não te apresentarias em embalagem tão vulgar e patética.
-A morte, e também a vida são patéticas. O que esperava? Um encapuzado com a foice?
Comecei a me sentir desconfortável com aquele diálogo. O pastel frito em gordura saturada do Tonhão e a visão daquele nariz avermelhado e todo furado pela varicela começaram a embrulhar em meu estômago.
Resolvi entrar no jogo para ver até onde ele iria e o que realmente desejava.
-Tudo bem. Suponhamos que realmente você seja a morte. Sou católico, apostólico- romano, apesar dos meus pecados, que não são poucos, quero garantias de que posso me redimir.
-Garantias? – Foi a vez de ele rir alto. – Olha, tens que cobrar isso da tua crença. Nem eu sei o que te espera depois do momento derradeiro. Eu sou apenas o elemento que executa, nem mais nem menos.
Não tinha como negar que aquela figura repugnante falava com certa propriedade.
-Vou te falar uma coisa, amigo. Se for policial, vais te dar mal. Estou limpo.
-Não vim aqui para te prender e sim para te libertar. Vem comigo.
Levantou-se e saiu mancando...