
A tênue linha que separava o que sentia do que eu realmente era rompeu-se no momento de maior rejeição de tudo que me era valioso. Honra? Não. Medo da solidão, de estar sozinho enxergando as coisas como elas são, ou no mínimo subjetivando isso.
O passo miúdo nas pôças lamacentas, os sapatos rachados embaixo serviam de exaustor para a sangria de pensamentos que vinham indesejados. A visão do oásis realístico (ou seria miragem?). Candango, apelido miserável, sem imaginação nem sentido, ao menos que eu saiba, soa engraçado e combina com a figura desengonçada que apresento a caminhar nas ruas enfeitadas para o Natal, motivo de olhares piedosos por onde passo e para quem se dispor.
Surto e ocupo uma mesa de madeira com bonita toalha logotipada em um bar da moda, o preço de duas cervejas pagaria a semana inteira de marmitex. Sorvo avidamente como se estivesse bebendo as últimas gotas da vida vibrante que ali me cerca. O garçom me olha desconfiado. Não fugirei sem pagar, tenho fugas mais importantes antes daqui.
Ao lado o engomado de plantão beberica uma xícara de café e parece estar cozinhando os miolos dentro do fumegante recipiente. As contrações faciais o idiotizam mais ainda. Ninguém me nota.
Inúteis! Vida de ostentação miserável e ignorante. Não batem olho de frente comigo por nada. Sabem que lhes furaria a alma. Não se apresentam a mim com enigmas fáceis, pois sabem que desvendarei.
Então o que lhes resta?