
Maurício era um bobo e sabia disso. Ricardo era ácido, direto e mal humorado. João Márcio era triste e vivia se queixando. Marcelo, o conquistador barato. Jorge posava de intelectual,fazendo citações literárias a cada assunto. Flávio, o analítico.
Quando se juntavam em conluio etílico nos finais de tarde da sexta-feira abafada, nas próximidades da Catedral, era difícil notar todas essas disparidades entre eles. Pareciam homens comuns, ansiosos por uma cerveja bem gelada para amenizar os efeitos do dia exaustivo em seus empregos.
Mesmo dia da semana, mesmo horário. A ordem de chegada ao bar era rigorosamente a mesma, exceto quando o carro de algum estava na oficina, ou em situações extremamentes imprevistas. Flávio era o primeiro. Chegava, puxava a mesa de plástico e as seis cadeiras para perto do ponto de táxi, de modo a enxergar o fluxo de pessoas nas ruas Antônio Manoel e Marquês do Herval. Gostava de todo aquele cerimonial que antecedia a reunião propriamente dita. Podia observar tudo dali.
Marcelo chegava uns dez ou quinze minutos depois. Camisa pólo listrada, dessas que pululam por aí nesse verão, calça jeans extremamente justa e tênis tipo skatista. Flávio lembrou que ele comentou algo a respeito de clientes que migraram para outros escritórios de advocacia, mas deixou o pensamento para lá. Sempre efusivo, o cabelo artesanalmente caído sobre a testa, cumprimentava braço a braço, a mão espalmada para o choque, quem não era precavido se assustava com o estalo. Logo se aprumava na cadeira em posição de cuidar e tecer comentários a respeito de ancas, peitos e glúteos. Irrecuperável.
Ricardo chegava com ar de fugitivo, o cumprimento seco e sério sem mostrar as gengivas e a olhar para os lados enquanto sentava, como que fazendo um reconhecimento do terreno em volta. A reclamação seguia uma cronologia repetitiva-
cadeira dura, mesa suja e cerveja quente.
João Márcio deixava o velho Corcel I já estacionado em alguma descida, visto a falta de arranque, falta de dinheiro e falta de vergonha do último mecânico que tratou da engenhoca. Vinha cabisbaixo, magro, as roupas largas e olhando seguidamente para o chão como que a procurar algo que havia deixado cair. O tique nervoso era puxar as calças para cima.
Maurício vinha logo atrás de João Márcio fazendo um alarido que espantava as famintas pombas que vasculhavam em busca de alguns farelos de xis, a rir da magreza do companheiro que sinalizava aos outros com o dedo em movimentos circulatórios próximos a cabeça como que a questionar a sanidade do amigo.
Jorge chegava por último. A cadeira da ponta da mesa, se é que mesa quadrada tem ponta, era dele. De frente para a rua principal. Para destilar sua sabedoria para o grupo e para quem quisesse ouvir quando passasse. A pasta de serviço,o laptop e mais dois ou três livros que chegaram pelo correio. Obras clássicas. A luz do mundo. A vacina contra a ignorância atualizada na edição 2009. Era prevenido.
Eles reinavam absolutos, ali na esquina do mundo naquele fim de tarde de sexta-feira...