
A conexão aconteceu por completo.
As pessoas tomavam as letras que eu escrevia como uma tábua de salvação. Eu rio, não posso fazer muito além disso. Elas me colocaram nesse patamar. Eu não tive culpa alguma. Juro. Fui içado às alturas pela veneração.
Bem no começo eu e mais três amigos decidimos formar uma banda de rock´n roll, coisa comum e em voga naqueles conturbados anos. Ok. Rodamos por bares noturnos e pequenos festivais. A partir das apresentações na Caverna toda essa coisa tomou uma proporção que saiu do controle. Histeria coletiva. Éramos os "Os quatro fantásticos" com um hit após os outro.Lançamos um álbum que até hoje é venerado como um dos mais influentes da história, apesar de não termos pretensão nenhuma, mensagem nenhuma, até por que estávamos em outra galáxia na época, viajando em LSD. Foram ótimos anos,não nego de maneira alguma. A partir dali minha imagem começou a se consolidar como o arauto da revolução, movimento esse que logo confirmou não resistir ao primeiro vento forte.
Resolvemos nos separar. Não havia como subir mais. Estávamos onde nenhum outro artista havia chegado. Então hora de reciclar, buscar a individualidade, o choque dos egos em busca do verdadeiro fio condutor e causador de tamanho sucesso. Dizem que foi minha mulher a causa da desagregação. Não. Ela apenas sabia o que eu estava tramando.
Eu projetei ser o guru da contracultura, retroceder e fazer o caminho inverso que segui com a banda. Me voltar a um intimismo fajuto e passar minha mensagem. Qual mensagem? Não sei. Absolutamente não sei. Embora tenha militado contra a guerra, pela paz, pelo respeito ao planeta, fiz isso por falta de foco. Talvez se aquele lunático com o livro embaixo do braço tivesse me dado mais tempo, eu teria descoberto. Mas acreditem, minhas imagens estampadas em camisetas são de acordo com o que vocês queriam. Tudo que escrevi e compus são só sonoridade, jogos de ecos trabalhados para soarem agradáveis, só isso.