
Estava ali, simplesmente.Como se a própria alvorada o tivesse trazido e fosse a única testemunha.
As primeiras pessoas que passaram no entorno da Catedral, olhavam curiosas. O tapete estendido no chão, com pequenas peças de madeira reproduzindo bichos silvestres, como araras e onças. Sua presença, indiferente e tímida, parecia atrair ainda mais atenção sobre si. Os longos cabelos, o rosto ovalado e os olhos puxados não deixavam dúvidas a respeito de sua origem indígena. Vestia uma camisa branca e uma folgada calça, com tons entre o cinza e o marrom. Nos pés, alpargatas de tecido, já muito gastas.
E uma flauta.
Os primeiros dias causaram estupefato geral aos incrédulos transeuntes. Intercalava a produção das pequenas peças, talhadas a canivete, com a execução de melódicas e hipnotizantes canções, que traziam aos ouvintes uma sensação de familiaridade com um tempo que não lembravam.
O passar dos dias trouxe a desconfiança das autoridades. Quem era ele? De onde vinha?
Representava perigo para a população? Resolveram abordá-lo e o conduziram para a delegacia, onde para a surpresa geral, constatou-se que além de não trazer consigo nenhuma espécie de identificação, era totalmente mudo. Ou não queria falar.
Após alguns dias, preso e sem nenhuma acusação formal, algumas pessoas influentes da sociedade, que haviam passado e presenciado com deslumbramento sua música, avalizaram sua soltura.
No dia seguinte, bem cedo, já estava novamente instalado em frente a Catedral, onde por vezes, parava de tocar ou entalhar, e ficava absorto, olhando o frontispício da Igreja.
Quando um certo Antônio da Silva, do meio da plateia anunciou que estava escutando com o ouvido esquerdo, o qual havia estourado o tímpano, a coisa começou a tomar um rumo extraordinário. A notícia correu, e várias pessoas com graus variados de enfermidades, começaram a procurar o índio e buscar sua música. Ele não decepcionava ninguém. Seu mutismo era compensado com a incrível melodicidade que parecia querer transpor as notas musicais.
Logo, o suposto sumiço de um tumor de pulmão, impulsionou a situação para a histeria coletiva. Um santo encontrava-se na praça de Santo Ângelo. Caravanas de outras cidades começaram a chegar constantemente, de vários municípios,alguns longinquos. Foi matéria de jornais locais. O índio da flauta mágica.
Certa manhã, os primeiros esperançosos que chegaram,para mais uma sessão de música milagrosa, não encontraram nem sinal do flautista. Foi montada uma mílicia para achar o santo, pois o povo não podia mais viver sem sua melodia.
Tudo em vão.
Nunca mais foi avistado. As vezes, comentários davam conta de que ele apareceu rapidamente, em alguma outra cidade das Missões.