
- Padre, estou com medo...
- Medo de quê?
- D´eles tirarem tudo de nós...
- Não há de acontecer.
- Padre,se não nos insurgirmos contra El Rey corremos o risco de sermos escorraçados como cães raivosos.
- Alferes Sepé,escuta... Essas negociatas entre Portugal e Espanha vem de longo tempo e mudam como a direção dos ventos, então não há motivo para se sobressaltar.
- Não sei... Eu tenho uma sensação ruim aqui no peito...
- Bobagem! Confia. Não haverão de nos fazer mal.
- Pelo sim pelo não, ficarei de sobreaviso. Essa sensação não me abandona...
- Esse misticismo da tua raça é uma coisa do perverso e os incita a ter posições errôneas.
- Padre, o senhor não entende. Estive falando com os anciões que me confirmaram que não sou só eu a sentir isso.
- Ouve bem. Nada, mas nada mesmo abalará nossa paz. Nós não prejudicamos ninguém, nem mesmo nos metemos nos negócios deles, portanto não acredito em retaliaçãos.
- Tive um sonho onde me matavam à beira de um riacho...
- Chega! Essa conversa mística não é de agrado do Grande Pai e só serve para disseminar o medo na redução. Vá ter com os teus, mas sem comentar sobre esse assunto!
* Celebrado no Rio Grande do Sul, Sepé Tiarajú (Joseph Tiaraju,redução de São Luís Gonzaga, em data desconhecida — São Gabriel, 7 de fevereiro de 1756) agora é herói nacional. Lei sancionada pelo presidente em exercício José Alencar coloca o índio missioneiro no mesmo patamar em que estão personalidades como Tiradentes, Santos Dumont e Zumbi dos Palmares. O projeto que transformou Sepé em herói é de autoria do deputado federal Marco Maia (PT). A partir de agora o nome do índio guarani passa, por lei, a figurar no Livro dos Heróis da Pátria. José Tiaraju era corregedor da Redução Jesuítica de São Miguel – uma espécie de prefeito. Em 1750, os reinos de Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madri, obrigando cerca de 50 mil índios cristãos a abandonar suas cidades, igrejas, lavouras, fazendas, gado e terras nas Missões. Insurgindo-se contra esse tratado, Sepé Tiaraju liderou a resistência dos índios guaranis. – Esta terra tem dono – teria dito, segundo a tradição.
Sepé Tiaraju tombou em combate no dia 7 de fevereiro de 1756, enfrentando tropas portuguesas e espanholas em Batovi, hoje município de São Gabriel.
Três dias depois, 1,5 mil índios foram trucidados na batalha do Caiboaté. O povo do Rio Grande do Sul, por conta própria, viu no herói missioneiro um santo, São Sepé, que virou até nome de cidade.