terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Saideira!





Agradecer é preciso e muito bom!
Pessoal esse último post de 2009 queria dedicar a vocês, que tiraram um tempinho, que poderiam estar fazendo outra coisa, e leram meus textos. Alguns desses textos de fundamento, outros pouco inspirados.Na verdade nunca imaginei que fosse agradar a tantas pessoas e levasse junto tantos fiéis seguidores.Foi uma grata surpresa.
Queria citar algumas pessoas que foram importantes nessa viagem do blog e entenderam minha proposta me presenteando com quatro mil e poucas visitas desde final de maio.
Vamos lá então,
primeiramente a Débora, um dos fatores de inspiração, com sua presença sempre participativa, fazendo correção ortográfica em alguns textos (os que tiverem erros, acreditem, ela não corrigiu).
Athos, Phortos e Aramis, os três mosqueteiros que me acompanham desde o início do blog com um textinho fraco chamado "Muitas Voltas", e são eles o Roberto Kusiak, amigão desde priscas eras e que tive a felicidade de reencontrar esse ano com seu blog "soco no estômago" MINHAS QUASE ESCRITURAS. A talentosa Marjorie Bier, com seus comentários ácidos e inteligentes, não necessariamente nessa ordem e seu blog que transpira urbanidade CÉU DA BOCA. O valoroso Kerouak/Huxley missioneiro Zé Dylan e seu psicotrópico SARAPATEL PSICODÉLICO. Eu e a Débora ainda vamos sentar com essa tríade e botar de a pá uma gelada.
Recebi um apoio fantástico do Doutor Oscar Pinto Jung, que diversas vezes divulgou em seus espaços na imprensa falada e escrita o oficinamissões, com toda a generosidade que lhe é peculiar.
Bem, ai vem o Pio Medeiros do delicioso blog PENAS DO PIO e aquele cheiro gostoso de galpão missioneiro. Cada vez que nos pechamos, geralmente no mercado, ele fala que está acompanhando minhas façanhas com a pena. Menos Pio,menos!
O compositor nativista Binho Pires, que embora não comente no blog, acompanha e me ralha quando fujo demais do tema Missões.Grande Binho, direto da Laranja Azeda(não é blog,é fazenda).
Eduardo Matzembacker Frizzo, embora apto a corrigir algumas asneiras que escrevo, prefere me dar alguns preciosos toques a respeito de coesão textual.
Bom, aí vem uma galera de longe e que me identifiquei e pretendo estreitar laços.
Começo pelo Léo de Sampa.Tu é irmão e te considero muito,tanto pelo tua proposta lá no NÃO PERCA AS CRIANÇAS DE VISTA mas principalmente pela pessoa que és.
Brunão,também de São Paulo, uma pena que deste um tempo no TEMPORÁRIO(!!), eu gosto muito do teu estilo de escrita e da tua pessoa.
Vinícius Collares e o seu DOUTOR CALIGARI, blog que sou viciado, pois trata de cinema com rara competência.
Thunderbirdsampa etílicamente exagerado em seus elogios, ainda bem que não deslumbrei.
Thiago Nardi e o estiloso ESTANTE IMAGINÁRIA, ótimo blog e simpatissíssimo dono.
Augusto Bier, chargista maior do RS que apareceu por aqui me deixando extremamente feliz, sucesso com o SERENATA,Bier.
Pronto! A terapia do agradecimento. Tô me sentindo bem mais leve...
Um ótimo 2010 a todos os amigos que por aqui passaram.Até!

sábado, 26 de dezembro de 2009

A esquina do mundo!




Maurício era um bobo e sabia disso. Ricardo era ácido, direto e mal humorado. João Márcio era triste e vivia se queixando. Marcelo, o conquistador barato. Jorge posava de intelectual,fazendo citações literárias a cada assunto. Flávio, o analítico.
Quando se juntavam em conluio etílico nos finais de tarde da sexta-feira abafada, nas próximidades da Catedral, era difícil notar todas essas disparidades entre eles. Pareciam homens comuns, ansiosos por uma cerveja bem gelada para amenizar os efeitos do dia exaustivo em seus empregos.
Mesmo dia da semana, mesmo horário. A ordem de chegada ao bar era rigorosamente a mesma, exceto quando o carro de algum estava na oficina, ou em situações extremamentes imprevistas. Flávio era o primeiro. Chegava, puxava a mesa de plástico e as seis cadeiras para perto do ponto de táxi, de modo a enxergar o fluxo de pessoas nas ruas Antônio Manoel e Marquês do Herval. Gostava de todo aquele cerimonial que antecedia a reunião propriamente dita. Podia observar tudo dali.
Marcelo chegava uns dez ou quinze minutos depois. Camisa pólo listrada, dessas que pululam por aí nesse verão, calça jeans extremamente justa e tênis tipo skatista. Flávio lembrou que ele comentou algo a respeito de clientes que migraram para outros escritórios de advocacia, mas deixou o pensamento para lá. Sempre efusivo, o cabelo artesanalmente caído sobre a testa, cumprimentava braço a braço, a mão espalmada para o choque, quem não era precavido se assustava com o estalo. Logo se aprumava na cadeira em posição de cuidar e tecer comentários a respeito de ancas, peitos e glúteos. Irrecuperável.
Ricardo chegava com ar de fugitivo, o cumprimento seco e sério sem mostrar as gengivas e a olhar para os lados enquanto sentava, como que fazendo um reconhecimento do terreno em volta. A reclamação seguia uma cronologia repetitiva-
cadeira dura, mesa suja e cerveja quente.
João Márcio deixava o velho Corcel I já estacionado em alguma descida, visto a falta de arranque, falta de dinheiro e falta de vergonha do último mecânico que tratou da engenhoca. Vinha cabisbaixo, magro, as roupas largas e olhando seguidamente para o chão como que a procurar algo que havia deixado cair. O tique nervoso era puxar as calças para cima.
Maurício vinha logo atrás de João Márcio fazendo um alarido que espantava as famintas pombas que vasculhavam em busca de alguns farelos de xis, a rir da magreza do companheiro que sinalizava aos outros com o dedo em movimentos circulatórios próximos a cabeça como que a questionar a sanidade do amigo.
Jorge chegava por último. A cadeira da ponta da mesa, se é que mesa quadrada tem ponta, era dele. De frente para a rua principal. Para destilar sua sabedoria para o grupo e para quem quisesse ouvir quando passasse. A pasta de serviço,o laptop e mais dois ou três livros que chegaram pelo correio. Obras clássicas. A luz do mundo. A vacina contra a ignorância atualizada na edição 2009. Era prevenido.
Eles reinavam absolutos, ali na esquina do mundo naquele fim de tarde de sexta-feira...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Candango!




A tênue linha que separava o que sentia do que eu realmente era rompeu-se no momento de maior rejeição de tudo que me era valioso. Honra? Não. Medo da solidão, de estar sozinho enxergando as coisas como elas são, ou no mínimo subjetivando isso.
O passo miúdo nas pôças lamacentas, os sapatos rachados embaixo serviam de exaustor para a sangria de pensamentos que vinham indesejados. A visão do oásis realístico (ou seria miragem?). Candango, apelido miserável, sem imaginação nem sentido, ao menos que eu saiba, soa engraçado e combina com a figura desengonçada que apresento a caminhar nas ruas enfeitadas para o Natal, motivo de olhares piedosos por onde passo e para quem se dispor.
Surto e ocupo uma mesa de madeira com bonita toalha logotipada em um bar da moda, o preço de duas cervejas pagaria a semana inteira de marmitex. Sorvo avidamente como se estivesse bebendo as últimas gotas da vida vibrante que ali me cerca. O garçom me olha desconfiado. Não fugirei sem pagar, tenho fugas mais importantes antes daqui.
Ao lado o engomado de plantão beberica uma xícara de café e parece estar cozinhando os miolos dentro do fumegante recipiente. As contrações faciais o idiotizam mais ainda. Ninguém me nota.
Inúteis! Vida de ostentação miserável e ignorante. Não batem olho de frente comigo por nada. Sabem que lhes furaria a alma. Não se apresentam a mim com enigmas fáceis, pois sabem que desvendarei.
Então o que lhes resta?

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O guru psicodélico!




A conexão aconteceu por completo.
As pessoas tomavam as letras que eu escrevia como uma tábua de salvação. Eu rio, não posso fazer muito além disso. Elas me colocaram nesse patamar. Eu não tive culpa alguma. Juro. Fui içado às alturas pela veneração.
Bem no começo eu e mais três amigos decidimos formar uma banda de rock´n roll, coisa comum e em voga naqueles conturbados anos. Ok. Rodamos por bares noturnos e pequenos festivais. A partir das apresentações na Caverna toda essa coisa tomou uma proporção que saiu do controle. Histeria coletiva. Éramos os "Os quatro fantásticos" com um hit após os outro.Lançamos um álbum que até hoje é venerado como um dos mais influentes da história, apesar de não termos pretensão nenhuma, mensagem nenhuma, até por que estávamos em outra galáxia na época, viajando em LSD. Foram ótimos anos,não nego de maneira alguma. A partir dali minha imagem começou a se consolidar como o arauto da revolução, movimento esse que logo confirmou não resistir ao primeiro vento forte.
Resolvemos nos separar. Não havia como subir mais. Estávamos onde nenhum outro artista havia chegado. Então hora de reciclar, buscar a individualidade, o choque dos egos em busca do verdadeiro fio condutor e causador de tamanho sucesso. Dizem que foi minha mulher a causa da desagregação. Não. Ela apenas sabia o que eu estava tramando.
Eu projetei ser o guru da contracultura, retroceder e fazer o caminho inverso que segui com a banda. Me voltar a um intimismo fajuto e passar minha mensagem. Qual mensagem? Não sei. Absolutamente não sei. Embora tenha militado contra a guerra, pela paz, pelo respeito ao planeta, fiz isso por falta de foco. Talvez se aquele lunático com o livro embaixo do braço tivesse me dado mais tempo, eu teria descoberto. Mas acreditem, minhas imagens estampadas em camisetas são de acordo com o que vocês queriam. Tudo que escrevi e compus são só sonoridade, jogos de ecos trabalhados para soarem agradáveis, só isso.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Umidade até na alma!




O homem entrou no meu táxi sem perguntar se eu poderia fazer a corrida.
- Toca para a rodoviária urgente.
Eu poderia perfeitamente ter inventado uma desculpa, afinal já estava quase na hora do almoço e eu não havia tomado café, mas a prestação do financiamento de sessenta meses do carro venceria dali alguns dias.
Resolvi ser político com a criatura que pelo aspecto perturbado estava metido em alguma enrascada. Liguei o rádio onde um velho som dos Pixies "Here come´s your man" destoava da situação. Porto Alegre? Pouco provável. A falta de bagagem e a pasta, daquelas afiveladas mostravam que o alvoroçado homem tinha alguma atividade comercial ou algo no gênero. Entrei na Sete de Setembro, onde o trânsito estava relativamente calmo para aquele horário. O ar extremamente abafado e as nuvens pesadas anunciavam um bom volume de chuva em pouco tempo.
Dei uma rápida espiada pelo retrovisor. O amigo da maleta estava visivelmente nervoso.
Olhava para o relógio rolex insistentemente como se estivesse com uma bomba relógio no bolso. Não devia ter mais que quarenta anos. Apesar de meu pouco tempo na profissão, já tinha desenvolvido o olho clínico para certas situções. Aquilo tinha a ver com algum rabo de saia. Namorada, amante talvez, isso, amante era o mais provável. O hábito e uma espécie de obrigação do taxista é fazer-se cordial e iniciar uma interação com o passageiro, muitos se abriam como se estivessem no próprio divã. Fiquei entre a cruz e a espada. Aquele cara não estava para muito papo.
Mas que diabo, a menos de uma hora uma velha senhora tinha me alugado de modo absoluto. Contou toda a cronologia de sua vida, a árvore genealógica e queria que eu contasse minhaa ascendência. Agora estava eu ali, louco para saber o que afligia aquele taciturno ser. Mais uma espiada. Estava a tentar desesperadamente uma ligação ao celular, balançava negativamente a cabeça. Era sério o rolo.
Os pingos começaram fortes e repicantes no pára-brisas. "Não vai, fica! Prometo que vou te fazer a mulher mais feliz do mundo..." - Tinha conseguido completar a ligação. Eu tinha razão. Mulher.
Para o azar dele aquele tempo na Capital das Missões, com uma umidade pegajosa, as nuvens espessas e escuras tinham tornado aquele meio-dia quase noite, não era o mais apropriado para um provável fim de relacionamento. Ele tentava argumentar, a pessoa no outro telefone parecia irredutível.
As vezes tiro com as situações que se me apresentam. Muito egoísta, tiro só com a desgraça dos outros. Um grave defeito que tento corrigir ha muito. Mas não foi aquele dia. Busquei uma grande e melosa música do Barry White no meu Mp3 e lasquei no rádio "Just Way you are", ou vai ou racha. Trilha sonora para demolir corações.
Ao fazer o contorno em frente à rodoviária avistei o motivo de tamanho desespero. Uma bonita e elegante mulher ao celular na calçada de entrada se protegendo da já forte chuva.
Quando meu cliente já havia me lançado uma nota de cinquenta reais(!!!) e nem esperaria o troco, colocou o pé para fora do carro e estacou.
Olhei pelo espelho e vi a mulher fechando abruptamente o celular e dar um sorriso disfarçado para um homem alto de casaco escuro e também muito elegante. Ele a beijou rapidamente com as passagens na mão e se dirigiram ao setor de embarque. Ela ainda deu uma rapida olhada por cima do ombro para o homem que estava em pé, todo molhado ao lado do táxi. Ela sumiu da vista e ele ficou ali cerca de três ou quatro minutos tomando uma enxurrada na cabeça.
Entrou novamente no carro, não reclamei da água que trazia consigo, afinal com os cinquentinha eu mandava fazer a lavagem da semana no carro. O Barry continuava com sua voz potente e aveludada cantando as mazelas de um relacionamento conturbado.
Ele puxou um lenço, secou o rosto e olhou hostilmente em minha direção.
- Desliga esse corno do Barry White e toca para o Tagreli que eu tô precisando beber alguma coisa...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Daniel na cova dos leões




- Dois, talvez três meses, não mais que isso... Se operar suas chances são praticamente inexistentes. Se optar pela cirurgia precisamos de sua resposta hoje mesmo.
Não sabia absolutamente o que falar. Indagar se existia chance de erro de diagnóstico aos empertigados médicos postados na sua frente era tentador, mas o fato de estar lutando a três anos contra um cancêr de pâncreas, um dos mais letais, o desestimulava.
Lidar com a situação a partir dali seria difícil. Como contar à família que agora existia uma data determinada. Antes ainda contava com a esperança de sobrevida mais longa sem prazo, agora chegava ao fim da linha.
Soubera conduzir tudo com um auto-controle que surpreendeu todos, pela gravidade da doença. Virou uma refência, um símbolo de persistência e luta para os amigos e familiares. Todos tinham certeza que venceria o desafio. E agora a decepção. Três sofridos anos persistindo, sofrendo com violentas sessões de rádio e quimioterapia em vão.
Era um homem forte, revestido um semblante austero e impenetrável para quem não o conhecia realmente e até para os mais íntimos. Amparou-se nessa imagem quando foi diagnosticado com a doença pela primeira vez. Todos esperavam que se vergasse ao destino, baixasse a cabeça e finalmente mostrasse a humildade que lhe julgavam faltar. Ele era humilde, mas a seu jeito. Não admitir a fraqueza dos outros era errado? Sinceramente achava que isso deveria servir de estímulo para que melhorassem.
O cargo que ocupava na empresa se encaixou no seu perfil com perfeição. Ele contratava e demitia. O poder nas mãos. A vida e a morte. Sentia o medo das pessoas quando eram chamadas à sua sala. Era completamente justo. Os que eram bons, ficavam, os incompetentes que achassem uma empresa em que o entrevistador não tivesse o seu olho clínico. Mas nunca humilhou quem quer que seja. Mesmo assim nos últimos meses achava que a imagem que deixaria não era das melhores.
Agora estava cercado por inimigos implácaveis. Eram minutos que avançavam e o sufocavam sem apelação. Era um caminho sem volta.
Nunca fora de frequentar igrejas, mas naquela tarde chuvosa, não se preocupou em abrir o guarda-chuva e andou lentamente observando cada detalhe da movimentação das pessoas. O que passava em suas cabeças? Pagar a prestação do carro, da casa, comprar a carne e a cerveja para o churrasco do domingo? Era monstruosamente desigual o peso sobre sua cabeça. A igreja encontravá-se quase vazia. O zelador, um que outro fiel ajoelhado em oração. Que droga fazia ali? Será que aquele refúgio de simbologias seculares o salvaria? Quantas pessoas em sua situação vieram até ali pedir para se salvarem? Sentou-se em um banco e respirou fundo. Por que resistia à religião era um mistério. Seus pais viviam em missas e celebrações. Ele logo que pode se desprendeu daquela obrigação. Agora estava ali. Era um hipócrita sem dúvida. A vida inteira sem crer em absolutamente nada e no final humilhar-se perante um Deus que nunca lhe dera sinal de existir. Não fez os benzimentos nem procedeu como era praxe, apenas pensou meio sem fixar atenção que se Deus existisse que mostrasse o nariz uma vez que seja a ele.
Saiu e perambulou pelo centro da cidade. Os sapatos faziam um floc floc inteiramente encharcados. O cheiro da fumaça dos carros era misturado com os pastéis da padaria. Passou por outro templo em uma esquina. Um jovem quase que imberbe e de terno distribuia folhetos "Mude sua vida hoje!".
O que fazer? Operar tendo chances quase nulas de sair da mesa cirúrgica ou aproveitar os poucos meses que lhe restavam?
Deu meia volta. Apressou o passo e esbarrou diversas vezes nas pessoas que vinham em sentido contrário
Entrou impetuosamente no consultório médico,avisou a secretária que estava ali em caráter de urgência. Sentou-se a aguardar e logo foi cercado pelos três médicos...

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O início do fim IV - O mito!




- Padre, estou com medo...
- Medo de quê?
- D´eles tirarem tudo de nós...
- Não há de acontecer.
- Padre,se não nos insurgirmos contra El Rey corremos o risco de sermos escorraçados como cães raivosos.
- Alferes Sepé,escuta... Essas negociatas entre Portugal e Espanha vem de longo tempo e mudam como a direção dos ventos, então não há motivo para se sobressaltar.
- Não sei... Eu tenho uma sensação ruim aqui no peito...
- Bobagem! Confia. Não haverão de nos fazer mal.
- Pelo sim pelo não, ficarei de sobreaviso. Essa sensação não me abandona...
- Esse misticismo da tua raça é uma coisa do perverso e os incita a ter posições errôneas.
- Padre, o senhor não entende. Estive falando com os anciões que me confirmaram que não sou só eu a sentir isso.
- Ouve bem. Nada, mas nada mesmo abalará nossa paz. Nós não prejudicamos ninguém, nem mesmo nos metemos nos negócios deles, portanto não acredito em retaliaçãos.
- Tive um sonho onde me matavam à beira de um riacho...
- Chega! Essa conversa mística não é de agrado do Grande Pai e só serve para disseminar o medo na redução. Vá ter com os teus, mas sem comentar sobre esse assunto!

* Celebrado no Rio Grande do Sul, Sepé Tiarajú (Joseph Tiaraju,redução de São Luís Gonzaga, em data desconhecida — São Gabriel, 7 de fevereiro de 1756) agora é herói nacional. Lei sancionada pelo presidente em exercício José Alencar coloca o índio missioneiro no mesmo patamar em que estão personalidades como Tiradentes, Santos Dumont e Zumbi dos Palmares. O projeto que transformou Sepé em herói é de autoria do deputado federal Marco Maia (PT). A partir de agora o nome do índio guarani passa, por lei, a figurar no Livro dos Heróis da Pátria. José Tiaraju era corregedor da Redução Jesuítica de São Miguel – uma espécie de prefeito. Em 1750, os reinos de Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madri, obrigando cerca de 50 mil índios cristãos a abandonar suas cidades, igrejas, lavouras, fazendas, gado e terras nas Missões. Insurgindo-se contra esse tratado, Sepé Tiaraju liderou a resistência dos índios guaranis. – Esta terra tem dono – teria dito, segundo a tradição.
Sepé Tiaraju tombou em combate no dia 7 de fevereiro de 1756, enfrentando tropas portuguesas e espanholas em Batovi, hoje município de São Gabriel.
Três dias depois, 1,5 mil índios foram trucidados na batalha do Caiboaté. O povo do Rio Grande do Sul, por conta própria, viu no herói missioneiro um santo, São Sepé, que virou até nome de cidade.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A cura!




Conte um pouco do seu passado,vamos lá!Se lhe for incômodo, pode ser o futuro. Eu tenho todo o tempo do mundo para ouví-lo. Não que eu já não saiba tudo sobre você. Dos seus sonhos, dos medos, do pé atrás com aquelas pessoas que te rodeiam em bajulança. Fique à vontade. Se não quiser falar, ok! Posso eu dizer o que para você é tão difícil, que te traz a sensação de sangramento na garganta se verbalizar e trazer ao mundo teu segredinho. Por mais sujo que ele possa parecer,acredite, pode confiar. Eu sou um espelho na tua frente,e você sabe, espelhos nunca mentem. Ultimamente você tem se vestido mal, o cabelo precisa de corte, a cor da tua pele não está saudável.Eu sei é ruim as pessoas não te levarem a sério, quem sabe a culpa seja sua por estragar tudo na última hora, como um palhaço maluco? Eu estou aqui para cuidar de você. Eu sou teu salvo-conduto para dias melhores.Mas eu preciso da tua total entrega, com alma e tudo. Tens medo de me entregar a alma? Não precisa. Lembra-te que já entregaste a tanta gente que não merecia. E gente que não podia te oferecer tanto quanto eu. Sabe por quê? Por que eu nunca te enganaria e sabes disso. É por isso teu receio. Estou com todas as soluções aqui, a dois passos de ti, dentro desta pequena maleta. Se quiseres abro agora mesmo e todas tuas preocupações e temores zap...sumirão como em um passe de mágica. Eu sou o homem da medicina, dos emplastos e fórmulas inacessíveis. Não te assuste com minha capa e o chapéu. Eu viajei em carroças rústicas atravessando os mais áridos sertões e densas matas. Para tudo eu tenho solução. Estás sentindo esse aroma? É do teu perfume predileto. Feche os olhos e sinta que não represento perigo. Eu sou a tua esperança, só preciso que não resista...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A insurreição de Ramiro Cortez!




Chegar até o alto daquela coxilha. Era esse o firme propósito de Ramiro Cortez.
Não seria fácil, sabia ele. Entre ele e seu objetivo, encontrava-se um campo de batalha, com sons abafados e desconexos, que parecia reconhecer.
Espiou receosamente por uma fresta, entre as duas pedras que se abrigou. Eram imagens escuras e difusas, mas o que estava ali, logo a frente, era irrefutavelmente familiar.
Não soube explicar por que era tudo tão confuso. Sabia que a cidade, tão temida, estava logo ali, depois daquele monte. Mas aquela batalha que acontecia a poucos metros, tencionava não deixá-lo realizar seu intento.
Uma volta ao princípio, ao marco zero, onde as lembranças não muito agradáveis de um passado assaltado por fatos, que não pediram licença, não perguntaram se feriam ou não, apenas adentraram a porta sem cerimônia. Danem-se esses fatos. Fatos são fatos em si e ali morrem. Era isso que Ramiro decidira aos trinta e cinco anos. O embate, o choque contra tudo aquilo que julgava perigoso e limitador de movimentos mais longos e flexíveis. E tudo isso encontrava-se lá, dentro daquele bauzinho de madeira que ganhara de aniversário de cinco anos, réplica quase perfeita daqueles que os piratas, dos filmes, buscavam em suas expedições indecentes pelos sete mares.
O cabelo já não era tão volumoso, marcas em volta dos olhos, o sobrepeso. Mas era assim que se apresentava para a batalha. Armas? O beijo da mulher,uma mochila dessas que os adolescentes usam, parecendo fazer parte do próprio corpo, com seus seis livros prediletos e vários cd´s de rock-"toma pai, vai precisar para carregar tuas coisas, mas me devolve amanhã cedo quando voltares, pois tenho aula..." e um longo cajado. Ali estava o antídoto. Confiava absolutamente neles. Sairia da trincheira com o peito exposto. Que venha, pútrida aragem. Isso é tudo que tens? Não. O solo era lamacento. A cada passo,mesmo andando com cuidado, parecia afundar os pés. Golpe baixo. Jogaria sujo também. Uma densa névoa escura o envolveu, e odores muito conhecidos invadiram suas narinas. Cada cheiro, uma etapa de sua vida. Não se aproxime. Desista. Havia um sol acima da névoa, mas um sol de eclipse, de sonho, irreal e indiferente. Agora o turbilhão de vozes começou a se tornar audível. Muitos personagens de sua história iniciaram um coro invocando seu nome. Ramiro! Ramiro! Desiste. É melhor para todo mundo. Peraí. Todo mundo quem? Para ele não vinha sendo há trinta anos. Que vão o inferno. Com o cajado buscava algo firme no chão, para pisar. Notou que já havia passado pela bruma de vozes e odores. Agora iniciava a subida da coxilha. Conseguia ver o pequeno baú na extremidade, tal e qual sua memória guardou. O fôlego lhe faltou em vários momentos. A subida era extremamente íngreme. Não desistiria.Pela mulher e o filho. Principalmente por ele mesmo. Quase caiu, o peso da mochila tornou-se insuportável. Poucos passos e estaria junto ao baú.
Conseguiu. Resolveu ser metódico, e primeiro abriu o bauzinho, antes de olhar para a cidade. Não havia mais o medo, apenas a melancolia de reencontrar o guardião de seus brinquedos e medos. Soltou as presilhas. Tinha pressa. Curiosidade para saber se retornaria diferente.
Havia apenas o binóculo prateado dentro. Tanto receio e medo e apenas o binóculo... Estava realmente surpreso. Esperava achar muitas coisas que o acompanhavam negativamente a muito tempo. Era irônico.
Virou-se para olhar a cidade. Ela não estava logo ali. Encontrava-se quase na linha do horizonte. Ele tinha certeza da proximidade e agora isso. Olhou o binóculo. Olhou para a cidade quase sumida no horizonte. Levou o binóculo aos olhos. A cidade estava realmente muito longe. Ela não tinha mais como ferí-lo. Nunca mais.
Guardou carinhosamente o pequeno binóculo no baú., fechou-o e começou a longa jornada de rotorno para casa...

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O senhor do tempo!




Minha jornada foi longa. Não lembro quando comecei, só sei que foi há muito tempo atrás. Minha idade remete a eras passadas, de figurinos fora de moda e fotos desbotadas. Minhas memórias reais sumiram e em seu lugar ficaram somente as lembranças emocionais.
Feri muitas pessoas, usei-as e descartei-as quando não mais me serviam, menti que amei, amei quando menti. Fui sarcástico, cruel e generoso. Deixei o tempo ser meu aliado enquanto pude. Usei-o para aproveitar o conhecimento que com ele anda junto. Busquei o controle absoluto sobre tudo e todos. Criei um escudo invisível contra o sofrimento e suas múltiplas faces.
Muitos chegaram até mim e nada conseguiram, outros chegaram desolados e eu os inflei de esperança. Fui insultado, pisado e escarrado sem chance de defesa. Desci ao inferno e de lá fui resgatado por mãos de quem eu nada esperava. Usei meu arsenal verborrágico para reagir e submergir em meio a um exército hostil e raivoso. Fui hábil e traiçoeiro usando minha inata capacidade de adaptação. Agora ele está me abandonando. O tempo já não está mais ao meu lado, em uma situação que eu sabia inevitável.
Azar.
Meu e dele, pois eu estou ajoelhado e vencido e ele está perdendo um aliado que soube lhe extrair tudo de melhor e pior que tinha a oferecer...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O início do fim! O extermínio



Fera sanguinária ou gente? No que aquela caçada desumana havia transformado o praça Antônio Machado? O pequeno espelho quebrado que usava para fazer a barba em volta das brasas da fogueira naquele extremo sul das Américas não respondia a pergunta.
Por que continuar ali era outra indagação recorrente. Assistiu a maioria da tropa se transformar em uma horda de assassinos e horrorizou-se com isso. A situação saíu do controle e aquilo parecia a ante-sala do inferno.
A dúvida lhe atordoava. Não conseguia compreender como aqueles rapazes recém saídos da puberdade, como ele também, dóceis e tímidos antes do início das ofensivas, tornavam-se bestas cruéis quando conseguiam capturar algum índio que vagava perdido naqueles capões. Os nativos eram grupos cada vez mais esparsos. Estavam subjugados e não ofereciam nenhuma resistência. Então, por que tamanha crueldade?
Estava cansado. Dois anos de muitas manobras, poucas batalhas e andanças sem fim. Tinha vinte e dois anos, mas sua alma estava envelhecida. Havia presenciado muito mais coisas que os velhos de Douro, sua região natal.
A exaustão era completa. Não via a hora de embarcar de novo para Portugal. Ainda mais agora, quando percebeu que a promessa do ouro dos padres não se concretizaria.
Vinha tendo pesadelos frequentes. As faces tomadas de pavor dos pequenos indios, ele com uma enorme cimitarra na mão. Não. Não era ele. Era o soldado Gusmão. O Gusmão não havia morrido de tosse brava há algumas semanas? Acordava com o coração aos pulos e o corpo dolorido. Precisava acabar com aquela rotina de caçadas, andanças sem fim e morte. Aliás o cheiro da última havia se impregnado nele. Não era a morte branca e sim a morte índia. Uma sensação de culpa desabava com o peso do chumbo sobre ele.
A mãe a entoar doces canções de ninar à beira do catre. A lealdade ao Rei. A sua vida estava fragmentada. Lembrou do plano de dar ao primeiro filho o nome do avô. Não! Não teria filhos. Seria impossível olhar a criança sorridente sem lembrar o rosto dos pequenos nativos que vira morrer. Ele desceu ao mais baixo lodo.
Naquela alvorada fria de 1756, o praça Antônio Machado olhou o céu já limpo de estrelas. Pelo menos elas não testemunhariam o que ainda viria no decorrer da manhã...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Um estranho na multidão!




Os rostos são estranhos. Talvez por eu ser um estranho. Passam rapidamente por mim. Curiosamente procuram um contato visual e encontram o obstáculo do meu impenetrável óculos escuros. A calçada é estreita para o enorme fluxo de pessoas. Workholics apressados fazem malabarismos improváveis para ganhar tempo e dianteira dos demais. Filas quilométricas saem das lotéricas. Máquinas de sorvetes e expressões ansiosas aguardam a vez. Artesãos ambulantes sentados no meio fio exibem suas obras em tapetes estendidos no chão.
O fato de eu não gostar do olho no olho não denota falsidade. A viagem é outra. Observar e estar protegido de um possível intruso. Meu olhar poderia me denunciar? É bom não arriscar.
O velho sentado em uma dessas cadeiras de abrir na esquina do banco me puxa pela camiseta "tenho todo tipo de ervas e chás para qualquer enfermidade,filho!". Sorrio sem responder. E as doenças da alma, o senhor sugere o quê?
Apresso o passo. Os primeiros pingos de chuva na abafada tarde de verão se precipitam sobre a multidão. Me abrigo debaixo de uma marquise da loja de eletrônicos. Sou espremido contra o vidro da vitrine por pessoas tentando não se molhar. O jeito é esperar Olho para dentro da loja e vejo um gestual vendedor fazendo uma explanação provavelmente sobre as vantagens que aquele casal do interior vai ter em adquirir a reluzente máquina de fazer pão. Um corpulento senhor pisa no meu pé direito. Porra! Foi-se a minha unha. "Desculpe!". Resolvo continuar minha andança, mesmo com chuva. Agora os poucos que se aventuram a confrontar os pingos agora gelados me olham com mais curiosidade. Ah, os óculos escuros! Sinto muito, mas não estou preparado para o mundo e suas cores reais. O cabelo gruda na minha testa, a camiseta nas costas.
Quanto vale uma vida normal? A vida como a que essas pessoas que se assustam com uma chuva revigorante dessas? Ou que vivem uma constante disputa contra um adversário que sequer conhecem? Bem, eu já não luto mais. Decidi trazer o adversário para o meu lado. Observo e isso me basta. "Olha o arco-íris!" . Não enxergo por causa dos óculos escuros e as cores são muito fortes...

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Banquete com mendigos!



Eles foram chegando aos poucos. Uns vinham solitários, outros em duplas, desciam das velhas carroças puxadas por animais muito maltratados.
Suas cabeças eram enormes, desproporcionais aos corpos esquálidos, que nadavam nas roupas extremamente imundas. Os homens usavam cartolas amassadas, rodopiando bengalas em um andar à Carlitos. As mulheres, com enormes coques no alto da cabeça, o cabelo empastado de óleo, os vestidos rasgados, de um colorido desbotado pela exposição ao tempo, faziam o par de um dueto desafinado, mesmo tendo emergido da mesma lama.
Tentavam andar em sintonia, subir os cem degraus, onde um mordomo afetadamente polido aguardava para conduzí-los ao enorme salão onde o banquete estava posto para cem pessoas. Muitos, debilitados por doenças infecciosas adquiridas na podridão fecal das sarjetas, traziam no colo crianças pequenas cobertas de icterícia. Os cães ladravam e se pegavam em um embate medonho, antevendo a disputa pelos restos de comida.
O tapete outrora vermelho, tornara-se marrom devido à sujeira que traziam impregnada em cada poro. Muitos não suportaram a longa escalada e caíam ora arrastando escadaria abaixo seus pares, causando uma gritaria louca que ecoava no vale de chão estéril em que o imponente castelo se localizava.
O cheiro acre e fétido, exalado de seus corpos se misturava ao odor do assado, enchendo suas bocas de uma saliva transbordante aos lábios rachados. Os trinta que conseguiram chegar ao topo, junto ao enorme portão com grades de um metal forjado em eras longínquas, foram instruídos a não levantarem as tampas das brilhantes e ovaladas travessas de ouro puro. Aguardassem o anfitrião que logo apareceu totalmente desprovido de vestimentas. O corpo frágil, o cabelo longo e esbranquiçado, a pele enrugada como que solta sobre os ossos. O diminuto orgão sexual caído sobre o enorme saco escrotal, que foi cuidadosamente ajeitado de modo ao ancião não sentar por sobre aquela anormalidade. Olhou para o mordomo, que anunciou o início daquele dantesco espetáculo. Podiam se servir. O barulho metálico dos talheres lembrava os preparativos para uma batalha medieval onde os sobrevinentes penavam em anos de abandono. Levantaram as fumegantes tampas, que lhes queimavam a endurecida pele das mãos, e deram com as vasilhas completamente vazias.
O anfitrião os observava com os dedos entrelaçados, servindo de suporte para a cabeça. A fisionomia matreira e divertida, principalmente devido aos olhos miúdos e muito astutos, abrangia a todos. Os convidados o olhavam, sem entender nada e com uma expressão ridícula, de decepção, estampada em cada rosto.
O velho explodiu em uma gargalhada histérica, que retumbou muito tempo por todos os recônditos do reino.

sábado, 10 de outubro de 2009

O homem do sapato 38!




Havia comprado na liquidação. Último par. Trinta e nove reais e noventa e nove centavos. Baita negócio, principalmente na situação em que se encontrava. Mesmo que fosse um número menor do que calçava.
Ao mesmo tempo em que parecia mais radiante e o sol fustigava com força, as coisas pareciam mais vivas, as cores chegavam a doer nos olhos.Não estava mais acostumado com aquele movimento alucinado do Dezembro pré-Natal. Ao passar pela frente do empório, lá estava ele, da cor do sangue em inicio de coagulação. Droga! Já havia trabalhado em um laboratório recolhendo o liquido que muitas vezes esguichava rubro,outras quase preto e desde então sempre que se deparava com algo avermelhado associava, inclusive gostava de carne mal-passada,mas não olhava ao levar à boca.
Os doze anos preso o levaram a um processo de interiorização grande. Primeiro uma enorme depressão, perdeu dez quilos, o resto da pouca inocência que ainda lhe restava e ganhara um enorme cicatriz que começava no canto da boca e ia até a orelha. Coisa feita com precisão cirúrgica por um homicida encarcerado há muito, muito tempo com um estoque de dez centímetros. Mostrar quem manda ou coisa do gênero. Dois dias na enfermaria, três dentes quebrados e a volta à rotina da cela.
Bem, havia saído pelo beneficio do indulto de Natal e ali estava. Ruas estavam pequenas para o grande fluxo de pessoas, casais de namorados, crianças fazendo um barulho tremendo diante das parafernálias e estratégias das lojas para atrair a atenção dos consumidores. Estava com fome e dispunha de dez reais. Comeria um xis e tomaria uma cerveja. E daí que fosse todo o dinheiro? Merecia esse luxo. Respirava o ar que para muitos era impuro devido aos carros com uma avidez de quem passara muito tempo com o cheiro de excrementos impregnado na própria alma.
As visitas na prisão se resumiam a um velho tio que ajudara a criá-lo. A família, o pai, a mulher e os filhos nunca apareceram. Ele havia pedido por carta que não o vissem naquela situação. Eles respeitaram, para sua tristeza. Imaginara que não seguissem sua orientação e mesmo assim fossem vê-lo.
Doze longos anos e uma estada no inferno. Conhecera muita gente, alguns realmente criminosos irrecuperáveis,outros pareceram que acabaram ali por incapacidade e despreparo para atender as ânsias de uma sociedade autofágica.
O estômago que aguentasse. Iria descer até o bairro.Precisava pelo menos visualizar os filhos e a mulher. Os pés doíam muito , o sapato era realmente muito apertado, fôrma pequena. Vinte quarteirões de suplício. Tirava os sapatos? Não. Se alguém o reconhecesse com aquela barba pelo menos estava com um sapato novo. Que idade teria o mais velho? Dezoito ou dezenove? Não tinha certeza. A caminhada era uma legítima via crucis e parava a cada dez ou quinze passos. Recontava mentalmente quanto ainda faltava. Agora oito quadras. Sete e meia. Quem sabe parava um pouco,tirava os sapatos um pouco e depois retomava a caminhada. Não! Quem sabe aquele sofrimento todo não fosse parte daquele processo que havia começado quando o tio lhe trouxera em mãos o primeiro livro que lia desde os anos de primário.Ai começou, outros vieram. Um projeto social que levava livros a prisões, orfanatos e asilos ajudou a tomar conhecimento de autores de nomes complicados e que a princípio pareciam não escrever nada com nada. O tempo foi seu aliado e não teve pressa. Quando acabava a obra, reiniciava com total abnegação. Aquelas palavras tinham de ter sentido. Tinham que representar algo. Eles foram sua companhia durante todo aquele tempo.
Agora a volta. Estava no quarteirão em que a rústica casa de madeira crua ficava. Eram dez horas da manhã de sábado. A vizinhança havia mudado um pouco. Algumas casas novas foram construídas. Haviam feito calçamento na rua central. Muitos cães soltos em meio à rua. O pequeno boteco de seu Silas ainda com muitos desocupados bebendo cachaça. O número 888 apareceu impactante em uma conexão rápida entre cérebro e batimentos cardíacos. Os pés amassados. O coração saltando pela boca. Doze anos. O mundo estava ali, mas muito diferente. As pessoas pareciam mais atarefadas nas casas. O menor teve meningite o tio havia contado há tempos. A mulher estava em uma indústria têxtil. O que diria? Se apresentaria como o esposo e pai? Um pária encarcerado doze anos a fio que não contribuíra para a criação das crianças, não estivera ali quando haviam adoecido, não os vira crescer. Deixara a mulher desesperada quando se envolvera naquele mundo das aparentes facilidades que resultaram naquele desastre. O barulho era de alegria dentro da casa. Música alta, gargalhadas. Parou. Não iria chorar. Havia perdido essa capacidade dentro da prisão.
Precisava daquilo, voltar e á partir dali decidir o que fazer. Colocou a mão no portão e a manteve por um tempo que não saberia dizer.Será que precisaria se livrar daquela parte do passado para ser novamente livre? Respirou fundo, retirou a mão do metal frio e seguiu adiante...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A morte é horizontal!






Era incrível que não estivesse sentindo dor. A questão era ser ou não bom ainda estar consciente. Um calor úmido espalhava-se pelas costas. Era o próprio sangue.
A certeza que morreria se não fosse logo socorrido, para sua surpresa não o desesperava. Estava em uma espécie de limbo, pois os fatos em sua volta pareciam passar em um aparelho de tevê em slow-motion e ele fosse um mero expectador. Mantinha os olhos abertos involuntáriamente e não controlava mais nenhuma função motora. Havia tombado ao lado da cama.
Os agressores continuavam na casa, ruídos e conversa vinham do corredor. Algo tinha contecido a sua audição pois as palavras pareciam vir do fundo de uma caverna.
Eles pensavam que haviam-no matado. O atirador chegou a se aproximar, chutando e mexendo em seu corpo, sendo levado a ter certeza da morte também pelo sangue jorrado em grande profusão.
Chegou a se indagar se realmente não estava morto. Como poderia estar assistindo toda aquela movimentação estando com aquele pavoroso ferimento na cabeça? Conseguia distinguir a pouca distância um pedaço do seu crânio, com o couro cabeludo ainda preso. A imagem de uma enorme aranha caranguejeira lhe veio à mente.
Foi arrancado daquela espécie de delírio quando lembrou que estava na hora da esposa chegar do trabalho com o filho. Um horror primitivo invadiu seu corpo e níveis elevados de adrenalina contrastavam com a imobilidade de seu corpo. Parecia que havia engolido uma enorme pedra de gelo.
Também matariam sua família? Provavelmente sim se fossem descobertos. Tentou imaginar alguma saída, alguma atitude que pudesse alertá-la do perigo letal que lhe esperava na casa.Não era possível. O corpo o abandonara.
Havia caído de bruços e sua cabeça ficara em uma posição alinhada ao piso frio. Dali conseguia enxergar os pés dos assassinos por baixo da cama.
Ouviu ao longe o barulho do motor do carro chegando e estacionando. Batida da porta e acionamento do alarme. "Não subam meus amores, não subam!". Ouviu o tlac tlac do salto da mulher no andar abaixo. Talvez achasse algo para fazer ou fosse até a geladeira e pegasse algo para comer e nesse interím de tempo um milagre acontecesse e alguém ou algum vizinho batesse à porta para pedir algo assustasse os bandidos e eles fugissem pela janela. O barulho cessou.
"Deus, não os deixe subir!". Os pés com os tênis brancos sumiram do seu campo de visão e o outro com os sapatos sujos com padaços de grama apenas retrocedeu em direção à porta.
Algo aconteceu na parte inferior do sobrado. Chegara a imaginar que haviam cortado os fios do telefone, mas ouviu a chamada e a voz da esposa atendendo, mas não entendeu o que falava.
A conversa parou. Silêncio. Novamente os passos, agora subindo as escadas. "Por favor amor,pare!". Agora não enxergava mais os pés com sapato preto. O sapato vermelho da mulher apareceu entrando no cômodo. Parou e seguiu em direção à janela. Sentiu alguém virando sua cabeça. A esposa o olhava nos olhos e disse...
-Belo trabalho, rapazes. Vocês trouxeram a serra e o plástico para desmembrar o corpo?

* Conto originalmente publicado no site "Beco do Crime" http://www.esquinadoescritor.com.br/beco_do_crime/

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O jovem Elvis!




Quando meu pai entrou porta adentro naquele 16 de agosto de 1977 e formal anunciou "Elvis morreu!",meu mundo não tão vasto para alguém que contabilizava seis anos literalmente desabou.
Como assim morreu? O herói dos meus filmes da "Sessão da Tarde" simplesmente morrer? Depois do mergulho inacreditável do penhasco em La Quebrada no filme "Seresteiro de Acapulco",morrer assim do nada...
Naquela época,pré antena parabólica,pré RBS TV,pré praticamente tudo,nosso aparelho televisor era uma enorme caixa de madeira,funcionava em preto e branco e tinha um opcional vidro azulado para simular cor. Às vezes saia do ar e levava muitas horas até voltar com a programação Global-Teve Gaúcha,o único canal disponível.Pela manhã,assistia o Sítio do Pica-Pau Amarelo com as aventuras da Narizinho,Pedrinho,Visconde e sua trupe.Pela tarde os filmes muitos reprisados do Jerry Lewis, Tarzan,da cadela Lassie(que dizem era macho),Daniel Boone e os meus preferidos-os do Elvis.
Um heroi perfeito. Cercado de garotas, boa-pinta,bom de briga, um vistoso topete e ainda cantava horrores.Era difícil a semana não reprisar alguns dos títulos que eu sabia de cor,afinal Elvis era o bicho.
Quando reprisaram alguns shows recentes para homenageá-lo,fiquei sem entender.Quem era aquele coroa grandalhão balofo e ofegante que esquecia a letra das músicas? Não,não e não.Do alto da sabedoria da minha meia dúzia de anos decretei-isso é uma farsa! Como pode o jovem e cantante herói ter morrido e ainda aparecer na tevê cantando e ainda por cima deformado? Definitivamente escolhi a primeira versão do Rei do Rock,virei as costas para a televisão e saí serelepe para brincar...

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O fim do mundo!



A notícia se espalhou como fogo em um rastro de pólvora.
No início, boataria, alguém, um primo de longe, em passeio, havia comentado, que em sua região, era o assunto em voga. Dessa forma, chegou até o padeiro, que contou para o Antônio da venda, que por sua vez, passou para a Gertrudes do seu Adamastor, de onde toda a cidade tomou conhecimento. Mas era boato, coisa de gente desocupada.
Quando o fato se confirmou, através de um noticioso da capital, o restrito e limitadíssimo universo da interiorana Santo Ângelo, entrou em colapso total. O empório esvaziou suas prateleiras e o alfaiate não vencia a demanda de encomendas de ternos pretos. Seus Malaquias, o alfaiate, conhecido pela avareza e ganância, tinha sentimentos contraditórios. Nunca vira tanto dinheiro na gaveta do velho balcão. Viveria para usufruir a presença reconfortante dos mil réis embaixo do colchão?
Todos queriam estar bem trajados, afinal um evento cósmico, que poderia varrer a cidade dos mapas não era algo comum. A grande maioria dava como certa o fim de sua jornada na vermelha terra missioneira. Além dos ternos, a sapataria do Cosme teve um movimento nunca antes registrado, e o velho mulato obrigou-se a contratar e ensinar o ofício a dois magrelas que residiam na vizinhança. Os munícipes queriam aguardar a chegada do terrível cometa,com nome gringo, elegentemente trajados.
Seu Sá, para descargo de consciência, confessou ao padre o assassínio de três cães, que embora não primassem pela robustez, ladravam a noite inteira na rua da Redução.
Dorival dos Santos, proprietário de uma loja de secos e molhados resolveu contar à devota esposa, que nas noites que saía para "fazer o balanço", na verdade, acabava caindo no porão do Chico Feio, onde andava perdendo muito dinheiro no carteado.
Etérea Fagundes tinha uma missão ainda mais penosa. Contar ao esposo a origem da alvura da pele do caçula Pedrinho.
Antoninho das Dores, o sacristão, vinha escutando o sibilar de um açoite e gemidos de dor, ao passar pela porta do aposento do padre Lara.
Bartolomeu Rezende, que junto com Floriano Bezerra e Nicolau Cortez representavam a "nova intelectualidade", também assíduos das boêmias mesas das casas mal-faladas e ateus fervorosos, foi visto rondando a casa paroquial durante vários dias, até que em um rompante adentrou com uma maçaroca de dinheiro nas mãos, atropelando as palavras e anunciando que queria comprar três rosários "para uma velha tia".
Bonifácio Gomes, funcionário do correio, de compleição magra, escasso de carnes e olhos de rato assustado, tirou as roupas, dobrou-as meticulosamente, e colocou-as sobre uma pedra. Em seguida, entrou nas águas frias do rio Ijuí, e foi caminhando até submergir totalmente, ignorando o fato de nunca ter aprendido a nadar.
Juvêncio Dias, pequeno criador de porcos no extremo leste da cidade, resolveu não mais matar os animais, iria a partir dali consumir só o que havia na despensa.
Antero Pitta, notório negador de contas, abriu o cofre escondido abaixo do assoalho do seu quarto,e retirou uma grande quantia. Iria, na tarde seguinte, fazer "um acerto,mulher!" com a imensa lista de credores.
Seu Gideão Varella,octagenário plantador de verduras, juntou os pertences mais necessários e os colocou na carroça junto à sua velha. Iria passar "uns dias!" na pequena propriedade rural para os lados do Comandaí, que se localizava em uma baixada. Talvez "o rabo do bicho não conseguisse atingí-los com rabetiada fatal".
E assim, as abnegadas almas, que residiam em Santo Ângelo Custódio, daquele inicio de século XX, esperavam ansiosos e tementes o seu fim do mundo...

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Soldados do ódio!



Seu reinado se consolidou pela força do ódio.
Iniciou como mero soldado da causa. Tarefas simples a princípio. Acompanhar as moças nos passeios pelos bairros de grande movimentação e atrair jovens que por ali perambulavam. Elas geralmente com suas roupas de couro pretas com reluzentes tachinhas, a maquiagem pesada, piercings e uma conversa a princípio agradável que em nada denunciava seus verdadeiros intuítos.
Ficou dois anos nessa função. Pouco falando e representando o papel de irmão nerd. As moças eram regularmente trocadas para não ficarem "manjadas" na área. Passou a ser um detalhista observador e notou a falta de comprometimento de muitos militantes, que pareciam mais interessados nas orgias promovidas em grandes galpões abandonados na orla da cidade.
Muitos o estranhavam. Não bebia, não fumava e não ficava com as vagabundas.
Resolveu pedir a seu sargento interceder em seu favor junto ao comandante geral. Queria uma chance de ir para a frente de combate. Havia de mostrar seu valor. Seis meses foi cozinhado em banho-maria até ser designado junto a mais cinco soldados para o ataque a rapazes que estavam buscando seus carros no estacionamento de uma boate gay.
Nessa espécie de batismo ele teve noção da sua verdadeira natureza. Ele era um predador, uma besta que desconhecia a piedade. Chegou a assustar os próprios parceiros com a insandecido ataque contra os indefesos rapazes. Com o soco inglês desfigurou o rosto de dois deles, um terceiro teve várias costelas quebradas a pontapés.
O comandante ficou feliz. Seu primeiro ajudante vinha dando sinais de estar pouco engajado, mais preocupado com as mulheres que comandar os soldados, e nenhum de seus sargentos mostrara o perfil que procurava. Achou o substituto. Observou-o durante um ano. Calado, discreto e letalmente eficiente, talvez um pouco exagerado em suas investidas. Chamou-o para uma discreta conversa e o incumbiu de organizar a própria sucessão. Uma fajuta missão em um balneário deserto foi a última missão do antigo capitão que não foi mais visto.
A partir daí verdadeiras blitzkriegs eram comuns nas madrugadas, colorindo com o rubro sangue de gays, nordestinos e negros as calçadas e o asfalto da capital.
Sua fúria se tornou lendária. Temido até pelos poderosos traficantes de drogas, que evitavam ao máximo conflitos por território. Se tornou o capitão mais sedento por destruição desde que o movimento se organizou dez anos antes, a partir de um tímido estudante de paisagismo.
Dois anos de terror se seguiram. Massacres,estudantes confundidos com as minorias perseguidas seguidamente caiam em suas mãos. Ele precisava limpar a cidade daquelas "raças inferiores". Nisso já havia lido o Mein Kampf, sua bíblia. Já discordava de seu general, achando-o muito estratégico. A causa precisava de ações mais incisivas, chamando a atenção da mídia e insuflando o medo na população. Sem o conhecimento do chefe arregimentou um grupo diretamente fiel a ele e que evitavam maiores contatos com o general. Ações secretas eram efetuadas.
Sua ascensão ao posto maior foi algo até certo ponto normal visto da imposição do horror ao restante do grupo. Tivera que cortar na própria carne. Muitos soldados que não conseguiu subjugar foram eliminados. Sua imposição brutal teve seu momento máximo quando convocou uma secreta reunião com os sargentos responsáveis por vários setores na cidade. Todos já previamente coagidos, claro.
A deposição do chefe maior e sua elevação ao posto foi aprovada pela grande maioria, receosa de retaliações. Acompanhado de dois enormes e ferozes soldados foi pessoalmente levar a notícia ao ex comandante, que nada pode fazer a não ser se resignar. Lhe foi dado uma chance de viver. Não poderia amanhecer o dia naquela cidade e que saísse do estado também.
Finalmente o movimento decolaria e o sul do país ainda seria uma nação independente e livre das influências corruptas daquelas raças menores.
Aquela vitória era sua, mas era apenas uma. Precisava ser mais forte ainda e vencer a maior de suas batalhas- aquela irresístivel atração que os homens negros exerciam sobre sua sexualidade...

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O início do fim!




O padre Ramon caminhou manquitolando até a grande árvore que ficava junto ao cotiguaçu e com dificuldade sentou-se em uma grande ramificação na raíz da centenária árvore.Era um hábito de muitos anos ficar ali após o almoço,tendo uma ampla visão de toda a movimentação da redução.
Naquele dia particularmente seu peito era um verdadeiro turbilhão de angústia e ansiedade.
Tomara consciência que a velhice chegara.Estava com sessenta e um anos, mas aparentava muito mais. Com certeza o sentimento de debilidade e impotência iniciou a partir do fatídico aviso de desocupação da redução.
Era um total desprezo ao trabalho abnegado dos irmãos da Companhia de Jesus.Haviam sacrificado suas confortáveis vidas na Europa para desbravarem esse inóspito território ao sul da América,fazendo seu trabalho catequizador, enfrentando feras, pestes e índios selvagens.Haviam superado todas as dificuldades e eregido aquele sonho utópico.
Os índios finalmente entenderam, e melhor, acostumaram-se à proposta dos padres. Alguns tinham um talento impressionante com as mãos e produziam peças fantásticas,com um detalhe curioso-os santos tinham os traços indiáticos. Outros se revelarem músicos talentosos, reproduzindo fielmente grandes composições da música clássica.
Estavam domados.. A promiscuidade inicial havia sido banida a pajelança idem,embora fosse praticamente impossível extirpar certas superstições deles.Eram por demais místicos.O padre deu um suspiro profundo e alto,chamando a atenção de um grupo de jovens índias que por ali passavam, o que resultou em risadinhas e cutucões.
O que seria daquela gente agora que sua essência primitiva lhe havia sido arrancada?
Será que todo o hercúleo esforço dos padres para humanizar aquelas longinquas paisagens iria acabar com um retumbante fracasso? Que tinham eles a ver com as escusas tramóias entre Espanha e Portugal?
O prazo havia sido estipulado, as ameaças não foram nem um pouco veladas. Alguns padres mais jovens e voluntariosos andavam de conluio com os líderes indígenas a fomentar idéias bélicas de resistência.Sacrilégio!! Eles,os homens escolhidos para levar a palavra de Deus aos homens,pensando em táticas de guerrilha.Era o fim do mundo.
Um indiozinho o puxava insistente pela batina,o rostinho moreno aparentava uma serenidade a muito esquecida pelo padre.Queria ouvir uma história.
-Venha cá menino,padre Ramon vai contar uma história muito antiga.A história de Davi e Golias...
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* Para os visitantes de outros estados,moro em Santo Ângelo, região das Missões, parte noroeste do Rio Grande do Sul e próximo à divisa com a Argentina. Minha cidade foi a última redução das sete eregidas pelos padres da Companhia de Jesus no no processo de demarcação de território pela Espanha e catequização dos indíos guaranis,reais donos desse território em meados do Século XVIII.No século XVIII a região estava sob disputa entre Espanha e Portugal. O Tratado de Madri de 1750 havia posto a área à disposição de Portugal em troca da Colônia do Sacramento, e a saída dos Jesuítas espanhóis ali ficou decretada. Mas este Tratado gerou conflitos: nem padres nem índios queriam abandonar suas reduções, nem os portugueses queriam abandonar Sacramento. Houve uma série de confrontos armados que culminaram na Guerra Guaranítica, que deixou um rastro de destruição e sangue,um verdadeiro massacre visto da disparidade de forças entre as tropas armadas e os índios e padres com lanças e flechas.
Os Sete Povos fazem parte de um importante capítulo da história do Rio Grande do Sul. Deram origem a cidades, auxiliaram na delimitação de fronteiras, e foram tema para a formação de um grande folclore regionalista de tom heróico em torno das figuras dos padres e dos índios, dentre os quais em especial Sepé Tiaraju. A cultura desenvolvida nestes centros chegou a alto nível de complexidade em termos de arte, urbanismo e harmonia social, e suas relíquias ainda podem ser vistas nos sítios arqueológicos e nos museus regionais. Sua importância é tamanha que foi digna da atenção da UNESCO, e o acervo de estatuária que se preservou e está espalhado em coleções privadas e públicas é hoje patrimônio nacional tombado pela UNESCO.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A complexa arte de amar!



- Vida, cada vez que passas na frente da tevê estou sujeito a levar um gol se não der tempo de apertar o start.
- Desculpa Benhê, eu nem lembrei que estava jogando videogame.
- Tá desculpada, só cuida para não passar de novo,tá?
- Claro. Só uma coisinha-olha este arranjo...ele fica melhor aqui ou aqui?
- Humm!Acho que em qualquer dos dois...
- Como assim?
- Qualquer dos dois lugares.
- Ah,tá.
(10 segundos)
- Me alcança essa revista que está aí do teu lado?
- ...!
- Obrigado. Se eu soubesse que ia fazer cara feia não teria pedido.
- Eu não fiz cara feia, Vida. Só que estou na semifinal e preciso me concentrar no jogo.
- Não sei que graça vocês(homens) acham nesses bonequinhos correndo atrás de uma bola.
- Esse jogo é muito real, amor. Ele simula todas as situações de uma partida de futebol.
- Hummpf! Pra mim continua não tendo graça...
(12 segundos)
- Eu te contei que a Rosália brigou lá na firma?
- Acho que sim...
- Então por que foi?
- Por que foi o quê?
- A briga. Se já te contei deves saber.
- Acho que foi...uhhhhh!Quase meti um golaço. Acho que foi fofoca.
- Da parte de quem?
- Como assim, Vida? Quem inic...rrrrrrr! Agora escapei de levar um. Quem iniciou a briga, é isso que queres saber?
- É!
- Para falar a verdade eu não lembro não!
- Taí, ó! Tu estás chutando. Sabes que noventa e nove por cento das brigas lá na firma são por fofoca. E eu nem havia te contado do barraco da Rosália.
- Então teve uma briga parecida semana passada, não teve?
- Tu deleta a maioria das coisas que eu te conto.
- Que besteira. Tá tudo guardadinho aqui, ó!
- Cínico.
(15 segundos devido à irritação)
- Benhê, comprei aquela lingerie do catálogo.
- Que catálogo?
- Aquele que olhamos juntos e tu gostou daquele conjunto rendado vermelho...
- Ah, tá. E quando chega?
- Eu tô com ele!!!
- Que merda tomei um gol! Eu disse "quando chega, chega arrasando!"
- Bobo!
- Tolinha! Vem cá!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O homem que odiava espelhos!



Era a terceira cidade em um ano. Gostava dessa última. Tinha opções de divertimento embora não mais soubesse o que era isso. Pessoas alegres e de aparência saudável com suas crianças pelas alamedas ensolaradas, shoppings movimentados, cores, odores e sabores nas mesas postas nas calçadas das ruas principais, onde tagarelantes e semi-embriagados amigos curtiam um happy hour sem compromisso de falarem verdades embalados por shopp gelado.
Iria ficar. Desta vez iria ficar.
Bobagem! Não ia e sabia disso. A fuga continuaria como vinha sendo nos últimos anos. Exatamente igual. Acordaria encharcado de suar no meio da madrugada com o coração prestes a sair pela boca, inundado daquela terrível sensação de abandono completo, de não pertencer àquele lugar,ao contexto e a absolutamente tudo que ali estivesse. Sentiria falta falta de algo que nunca lhe pertenceu. Não reconheceria a companheira de cama que dormia um sono plácido ao seu lado. Aí teria que partir imediatamente.
Desta vez seria muito difícil. Gostava realmente da mulher que trabalhava no mesmo restaurante em que era lavador de pratos. Haviam saído algumas vezes e ela o levara até sua casa onde mostrou sua antiga coleção de vinis e K-7´s .Algo nela o tocou. Algo profundo e doloroso. Uma solidão quase palpável. Ela representava perigo.
Por que tinha de ser assim? Se fizera essa pergunta centenas de vezes. Que tipo de sina o acompanhava naqueles últimos anos? Fatalidades aconteciam com todo mundo. Teria de vencer os fantasmas. Mas era fraco, fraco demais.
Já não sabia mais se o medo era de ser encontrado ou encontrar. Mudara o estilo de vestir, o cabelo e até o jeito de caminhar para não se reconhecer. Nada adiantou. Ainda teria que fugir muitas vezes...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Encontro Marcado II



Mesmo sem nenhum movimento, senti a presença forte aos pés da cama. Meus batimentos se alteraram imediatamente. Tateei às cegas para localizar a pistola no criado mudo. Nesse processo derrubei o despertador, um copo dágua e a caixa de remédios que tomava para dormir.
- Nem se incomode, amigo. Não vai precisar disso.-Era uma voz rascante e curtida por centenas de anos de cigarro.
- Vou te furar filho da mãe!-bravateei ainda procurando a arma.
- Está aqui! -me mostrando a pistola e o pente.
- Achei melhor recolher isto antes que prejudicasse meu trabalho.
- Olha cara, tudo é negociável, tenho dinheiro guardado em outro lugar. -eu havia pego uma quantia considerável com um agiota que já vinha me ameaçando há semanas.
- Estás enganado. Nem tudo é negociável.
Que merda! Os desgraçados tinham me achado. Eu tinha uma vaga esperança que fosse só espancado.
- Olha, eu falei com o Cheique que ia pagar, é só uma questão de tempo, dias talvez.
- Especificamente no teu caso, o dinheiro não faz mais diferença alguma.
Era o fim. Acabava ali trinta e cinco anos de pilantragem. Restava agir com dignidade naqueles últimos momentos.
- Tudo bem, acaba logo com isso seu puto!
- Eu não tenho pressa, ainda restam alguns minutos. -meteu a mão no colete e puxou um relógio de bolso. Eu já não entendia mais nada. Será que queria me torturar psicologicamente?
Meus olhos já começavam a se acostumar com a penumbra. O velho tinha algo de familiar. De onde eu o conhecia? O cabelo grande e desalinhado, o rosto miudo e muito, mas muito enrugado era ornado por dois olhos de um preto reluzente e vivo, que lançava chispas de presunção, indolência e autosuficiência. Usava uma bandana e um inacreditável anel da caveira em um dos deformados dedos.
Keith Richards estava aos pés do meu leito prontinho para me matar. Definitivamente não era uma coisa corriqueira.
Antes que eu falasse ele disse.
- Escolhi esse personagem para parecer mais acolhedor ao amigo! Ele é um dos teus grandes ídolos,não é?
Surreal. Salvador Dali brincando de pintar minha vida em uma nuance desvairada.- ele continuou.
- Teu tempo esgotou. Sou quem vocês chamam de morte, mas acho simpático aquelas bobagens de ceifador com capuz e tudo.
- Quer saber de uma coisa, se veio realmente me matar, esta se saindo um grande canastrão. Vai te foder.
- Foder...foder... Sabe, em um certo onze de setembro eu tive que me desdobrar em muitos e estava realmente estressado. Quase não consegui cumprir minha missão e ainda pela tardinha teria que recolher um famoso cineasta. Antes de abordá-lo, espreitei atrás de uma cortina no suntuoso apartamento de Manhattan. Ele estava a conceder uma entrevista para um canal de tevê e fez um equiparação hilária entre o sexo e eu-"a diferença entre o sexo e a morte é que com a morte você pode faze-lo sozinho sem ninguém para rir de você!"- achei o máximo e resolvi poupá-lo. Ele anda até hoje por aí. Mas não se anime, ele se salvou pelo talento!
Se fosse realmente a morte, era um puxa saco de primeira.
- Está enganado.-conseguia ler meus pensamentos!- Estou nesse negócio desde o início dos tempos e aprendi a distinguir homens de valor da escória, não que faça diferença, pois sempre vencerei.
- E eu com certeza estou no rol dos abjetos?
- Preciso te responder? Ladrão, gigolô, dedo duro e o pior...tão sem graça!
Resolvi endurecer o jogo e provocá-lo com ironia.
-Você é tão previsível...
Checou o relógio, acendeu um cigarro e com uma voz roufenha de bluesman disse.
- Simbora, é agora...
Virou as costas e saiu naquele andar trôpego de velho pirata bêbado ao mesmo tempo em que uma dor lancinante explodiu em meu peito.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O Lutador!



O supercílio direito estava aberto e o sangue tornava o olho esquerdo praticamente sem função. Achava que havia fraturado o nariz, pois sentia algo solto cada vez que puxava o ar. Que bela imagem teriam pela manhã os fregueses das barras de gelo.
O rosto estava tomado de equimoses devido aos socos. Aquele mestiço que vinha representando São Borja o havia castigado enormemente. Tinha quase dois metros de altura e era surpreendentemente rápido para o tamanho. Quando sua esquerda passava pela guarda causava um grande estrago. Diziam que treinava o dia todo em uma academia montada em uma fazenda de um dos Vargas, que o tiraram dos brutais trabalhos da lida campeira e investido em seu potencial. O que não era seu caso.
Trabalhava durante o dia entregando barras de gelo.Começava cinco da manhã saindo da fábrica que ficava no extremo sul com a carroça abarrotada de entregas para a cidade inteira. Seu condicionamento era descarregar as enormes barras para as geladeiras dos lares santoangelenses.
A figura corpulenta e simpática o tornaram querido por todos os cantos do município.
Quem descobriu seu talento para a luta foi um capitão carioca que ficara impressionado com o porte físico avantajado e a grande força para aquele serviço braçal. Convidou-o a treinar junto com militares e pouco tempo após pegar as técnicas básicas do boxer já era temido pela potência dos golpes. Quando conseguia encaixar sua direita em um golpe justo dificilmente o adversário ficava em pé.
Logo já representava Santo Ângelo em lutas que se realizavam em ringues montados junto ao Cine Apollo, nos Clubes Gaúcho e 28 de Maio.
A luta daquele dia não estava transcorrendo do jeito que esperava. Acordara as três da manhã e já não se sentia muito bem. Talvez fosse um princípio de resfriado. Os últimos dias vinham sendo de preocupação em razão da proximidade do aniversário do filho de oito anos. O menino dócil e educado nunca reclamara presentes antes. Geralmente ganhava algum agrado em sua data e sempre mostrava-se feliz, fosse qualquer coisa. Desta vez tinha sido diferente. Uma semana antes havia lhe pedido uma réplica de ônibus que era construída por um marceneiro que só construia sob encomenda. O preço era elevado para seus ganhos e despesas com a casa. Era privilégio de meninos abastados. O que o sensibilizara era a determinação do garoto que anunciou resoluto que seria motorista de ônibus, como ele próprio fora há anos.
Aquela luta que definiria o campeão missioneiro talvez possibilitasse a extravagância
da compra da réplica. Não havia falado para esposa. Ela seria contra com certeza. Mas ele sabia da importância daquilo, para o filho e para si próprio.
O que não imaginara era que enfrentaria um lutador profissional e muito bem preparado. Havia apanhado desde o primeiro round. Procurou ziguezaguear e fugir da temível canhota do mestiço, mas em duas oportunidades fora atingido em cheio.
Só ficara em pé por milagre. Sentira uma frouxidão nas penas e sentiu o mundo girar,o gosto de sangue inundando a boca. O supercílio abrira em um talho obsceno e inchara imediatamente, deixando-o somente o olho direito para se esquivar da saraivada de golpes. Sentia vontade de vomitar.
O tempo de descanso o salvou.
Retornou procurando manter uma distância segura do punho esquerdo do mestiço, mas sua mobilidade já não era a mesma. A imagem do filho com o brinquedo na mão e o rostinho de felicidade veio em sua mente. O punho do oponente fez vento perto de sua cabeça. Concentrou. Manter a distância e especular um contra-ataque era sua única chance diante daquela máquina de bater. Quanto mesmo ganharia com a luta? O cérebro já estava ficando confuso e ele sabia que tinha pouco tempo.
O adversário parecia irritado por seus golpes não estarem entrando e descuidava cada vez mais da guarda. Sentia uma dor rascante em uma das costelas. Precisava concentrar e achar o momento certo.
Conseguiu mesmo com o rosto deformado esboçar um sorriso matreiro para o mestiço, que com os olhos inflamados de indignação lançou-se em um ataque desarvorado, desferindo golpes a esmo. Então ela apareceu. Vislumbrou a brecha não muito grande mas suficiente para Domingão penetrar com sua poderosa direita, que entrou de baixo para cima, encontrando a ponta do queixo do mestiço, que tentou firmar as pernas, retrocedeu dois passos, vergou os joelhos e desabou seus cento e dez quilos sobre a lona...
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*Esse conto é muito especial para mim, pois o sr. Domingos de Oliveira Fortes era natural de São Luiz Gonzaga, como eu, e também adotou Santo Ângelo como como cidade do coração. Em seu histórico como lutador registra-se cerca de 38 lutas oficiais da quais perdeu 6, empatou 2 e venceu 30, sendo reconhecido o campeão missioneiro de boxe. Talvez nessas minhas maquinações eu tenha encontrado uma das figuras mais interessantes e emblemáticas da história da cidade. Foi motorista de ônibus e posteriormente entregador de barras de gelo. Seu filho,o menino do texto e meu amigo "seu" Adão Fortes, motorista aposentado da linha Santo Ângelo-Porto Alegre detém o título de Motorista Padrão do Sul do Brasil e hoje desenvolve um abnegado serviço social de conscientização por um trânsito mais seguro.
Domingão, como era conhecido, nasceu em São Luiz Gonzaga em 1913, mas há controvérsias em relação à data.Faleceu em 06/02/1993.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Nelsonrodriguiana!




Quem sou eu?
Ótima pergunta. Até aquela quente manhã de verão eu era uma sombra escondida em uma vida medíocre de servilismo burucrático em um pequeno e sujo escritório de advocacia. Não vou negar que aquele poeirento ambiente me deixava extremamente à vontade. Livros emontoados por cima das três antigas e pesadas mesas de mogno. As crises alérgicas que me causavam eram o ônus de usufruir do lugar. Um antigo e pesado rádio à luz, orgulho da velha múmia Vasconcelos, insuportável dono da firma era o que ornava uma das prateleiras da estante onde os livros mais usados para pesquisa ficavam.
Éramos três funcionários. Eu, o Moreira e a Lurdinha. O Moreira era bem mais antigo que eu, também submisso ao gênio irascível do Vasconcelos. Solteirão, franzino e narigudo me lembrava sempre o Ranulfo,o inimigo do Mickey. Morava em uma pensão antiga e mal cuidada no centro da cidade, era alvo de constantes especulações à respeito de sua sexualidade, talvez culpa de seu temperamento arredio e reservado. Eu particularmente o admirava muito, principalmente por seu senso de organização, coisa rara na minha mesa, onde calhamaços de antigos processos, alguns já amarelados pelo tempo se amontoam em uma profusão absurdamente crescente.A impressão que eu tinha é que cada vez que eu chegava pela manhã, a pilha crescia, inversamente à procura dos clientes pelos nossos serviços.
A Lurdinha era o motivo da minha permanência no escritório. Era o arquétipo da mulher fatal. Morena, alta, olhos que pareciam prometer prazeres indescritíveis a quem com ela conversasse e fosse abduzido por aqueles olhos hipnóticos. Eu a amava com o coração, a mente e todas as minhas gônadas. Ela sabia disso e como boa biscate que era, procurava sempre me provocar, passando sempre rente a mim nos espaços reduzidos da sufocante sala onde atendíamos. Queria que eu sentisse o cheiro do seu perfume, que não era grande coisa comparado com seu formidável cheiro de fêmea. Procurava volta e meia usar o fichário que ficava ao lado de minha mesa, deixando aquele avolumado traseiro quase na minha cara, o que resultava em variadas alterações fisiológicas em mim. Fazia um ano que o Vasconcelos anunciara a chegada da nova secretária, vinda segundo ele de um curso ténico em contabilidade, coisa que dúvido muito, pois sua total inaptidão para outra coisa que não me provocar era causa dos acessos de riso do Moreira que vez por outra largava algum documento que estivesse a ler, baixava os óculos fundo de garrafa até a ponta do nariz e ficava a observar a pouca destreza da moça para com tudo relativo à rotina do lugar. Quando ela derrubava algum livro ou me fazia alguma pergunta sobre gramática aos berros da sala de espera- "Seu Marcos, processo é com dois esses no início ou no fim?"- eu escutava retumbar a risada do Moreira na mesa ao lado.
Eu há muito vinha saturado com todo aquela falta de perspectiva do escritório, que vinha definhando, perdendo antigos clientes para jovens advogados, minhas comissões muitas vezes não pagas e a consciência que tinha potencial para ter meu próprio negócio vinham me impelindo a sair de lá.Até a chegada da Lurdinha!
Eu já estava em um estado de paixão que não aguentava os fins de semana que passava sem vê-lá. O problema maior resumia-se no fato que era amante do Vasconcelos e mais de meia dúzia de funcionários do Fórum os quais ela falava ao telefone. Claro,o Vasconcelos não sabia, afinal era ele que bancava o ótimo apartamento na Bento Gonçalves, roupas caras e comida da melhor. Aliás o caso do Vasconcelos era emblemático,pois em casa era um mão de vaca implacável, a mulher e os filhos só comiam carne aos fins de semana. As roupas eram compradas em saldões de fim de estoque em lojas populares.
Enquanto subia as escadas naquela sufocante manhã de verão, já tinha todo o plano armado. O filho da mãe do Vasconcelos ia ter uma senhora surpresa comigo. Todos aqueles anos de desmandos e pouco caso comigo iriam acabar naquele dia. Minha sina de perdedor acabaria ali,naquele dia. Mandaria ele à merda,pediria minhas contas e negociaria os encargos trabalhistas me me devia. Com o dinheiro compraria um mobiliário para uma sala que eu vinha namorando há semanas em uma galeria central. Entraria em contato com alguns clientes fiéis que só tratavam comigo e os levaria junto. Às favas a ética, ele que fosse para o inferno. Para arrematar o golpe final- convidaria a Lurdinha para vir comigo e ser minha secretária exclusiva. Provavelmente não aceitaria,nem eu teria condições de bancá-la, mas o gesto corajoso em si provavelmente mudaria minha imagem perante ela. Talvez essa coragem e empreendorismo que a maioria dessas interesseiras do naipe dela gostam, despertaria uma curiosidade que talvez acabasse uma noitada de sexo.
Entrei resoluto na sala de espera e estranhei a ausência dela. O silêncio na sala de atendimento era sepulcral, nem o maldito rádio ligado na estação que tocava vinte e quatro horas de música sertaneja não estava ligado. O Vasconcelos estava em sua mesa, a cabeça entre as mãos, os olhos no vazio. O cofre que ficava atrás do quadro do menino chorando estava escancarado.
- Marcos, tô fodido! Eu tinha quase cinquenta mil nesse cofre entre dinheiro, jóias e títulos...recebi uma ligação da mãe da Lurdinha. Ela arrumou as malas e acompanhada por um homem que pela descrição...ainda não acredito...era o Moreira, que se apresentou como namorado dela, fugiram os desgraçados!
Me dirigi até a estante, liguei o rádio em uma música do Milionário e José Rico, que falava das dores do amor não correspondido, sentei em minha mesa rindo sozinho e comecei a organizar aquela papelada, afinal que mal teria eu trabalhar mais alguns dias e ficar apreciando aquela tragicomédia que se abateu sobre o escritório da Avenida Brasil,526?

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Perto do fogo!



Conheci o Robertinho na época em que comecei meu primeiro emprego em 1988,em um escritório.Ele trabalhava em uma renomada seguradora como office-boy e utilizava nossos serviços.De compleição magra,cabelos cacheados e ruivos,era um clone do Mick Hucknall da banda Simply Red.A fala macia a voz rouca e arrastada aliada ao bom papo o alçaram a condição e Don Juan do pedaço.Motoqueiro apaixonado e habilidoso,gostava de se exibir em duas rodas.Foi pai aos catorze anos(!!!)
Era fruto de uma relação entre um homem casado e uma prostituta.Logo após seu nascimento o pai o levou para ser criado pela esposa que o recebeu e acolheu como se tivesse sido gerado no próprio útero.Mesmo assim carregou sempre consigo,mais por ele mesmo que sempre tocava nesse assunto que pelos amigos,uma estigma dolorida.
A família ofereceu todas as condições para ele crescer com bom colégio e suporte financeiro.Ele preferiu o caminho do risco procurando algo que não sabia o que era exatamente.Conheceu o mundo das drogas aos doze anos.
Me aproximei dele pelo coração gigantesco,capaz de privar-se de algo em prol de ajudar alguém,mesmo que desconhecido.A ânsia de viver e preencher o enorme vazio que lhe corroía era proporcional ao consumo de drogas,álcool e cigarro.
Acabou sendo demitido pela seguradora por não conseguir cumprir horários e foi contratado pelo nosso escritório.Foi aí que conheci essa grande alma.Foram vários anos de convivência e a certeza minha e de todos que conviveram com ele que se tratava de um menino doce perdido na sua angústia.
Aos poucos as drogas leves foram sendo substituídas pelo uso de cocaína,primeiro via nasal e depois intra-venosa.Noitadas intermináveis de porres homéricos,bebedeira e orgias acabaram com dois casamentos, sua empresa(que havia sido bancada pela família)e quase o conduziram à morte em um acidente terrível de moto em que escapou da morte por detalhes.
Na época em que eu estava fora e vinha à Santo Ângelo,buscava informações sobre ele com conhecidos,mas recebia as mais desencontradas-havia morrido,tinha se recuperado e ido embora,ou estava morando com o pai em um bairro longinquo da cidade para fugir dos credores do tráfico.Eu não sabia em que acreditar, mas com um misto de vontade de abraçar aquele querido amigo e o medo de sabê-lo morto.
Em 2007, ao sair de um edifício no lado oeste da cidade, enxerguei aquela chamativa cabeleira ruiva e associei que sua mãe morava à cerca de uma quadra dali.Era ele, em uma velha bicicleta Monark,uma barba rala,a aparência muito envelhecida, para os apenas quarenta anos,vestia camiseta e jeans imundos e ...me reconheu.
O que se sucedeu exatamente não saberia descrever. Eu tive medo de me aproximar e trocar uma palavra.Medo de deixar transparecer meu profundo pesar por vê-lo naquelas condições.Ele provavelmente teve vergonha de se expor naquela estado de quase mendicância. Um breve aceno com a mão,sem um sorriso foi o que restou de um encontro de dois velhos amigos. Ele se foi e eu fiquei ali parado sem ação e com o peito apertado engolindo em seco e procurando razões...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O Livro!



O pacote parecia sobressair naquele cenário.
Talvez porque fosse um daqueles dias típicos do agosto no Rio Grande do Sul, com muita garoa e frio. Isso só o tornava mais melancólico. Não queria estar ali, naquela rodoviária de uma cidade que não lembrava o nome. Tinha descido para respirar um pouco de ar puro nos quinze minutos em que o ônibus parava para que os passageiros comprassem algum lanche ou ir ao banheiro. Escolheu uma mesa que ficava junto a uma grande janela envidraçada, que lhe dava a possibilidade de observar toda a movimentação em volta do veículo, e o momento que começassem a reembarcar.
Resolveu pedir uma dose de uísque, talvez o ajudasse a relaxar e dormir um pouco, na viagem. O sono vinha sendo algo raro nas últimas semanas, desde que recebera a notícia que teria de mudar-se de Belo Horizonte para a região das Missões, no Rio Grande do Sul.
Um buraco no fim do mundo, era para onde o mandaram! Era isso que dava não ser “puxa-saco” do chefão. Nem sabia da existência desse lugar. Levava somente roupas e o laptop, pois faria um processo de transição com o outro supervisor e voltaria para Beagá para os últimos detalhes da transferência e buscar o carro.
Que diabos de lugar seria aquele? Frio, com certeza. Será que a cidade tinha infra-estrutura para oferecer uma vida noturna agitada, como tanto gostava? Pouco provável. Pesquisou alguma coisa na Internet e as informações não eram nada animadoras.
Aquela região era a mais pobre do estado. A formação étnica passava por uma mistura de várias raças, mas o sangue indígena corria forte por lá. Um nome estranho o deixou curioso- pelo duro!! Caramba, será que índios andavam pelas ruas?
Voltou a atenção, novamente, ao pacote em cima da mesa em frente, vazia. Retangular e envolto em um chamativo e brilhoso papel vermelho, bem no centro da mesa branca. O curioso é que as pessoas que passavam o ignoravam categoricamente, como se ali não estivesse.
Um homem alto, de cavanhaque, chegou a sentar-se para amarrar os sapatos. Mas em seguida, levantou-se e saiu, deixando o pacote intacto. Contos da Crypta! Era só o que faltava, bêbado com uma dose de uísque. Começou a rir sozinho. Foi até o banheiro e passou uma água no rosto. Quando retornou, lá estava ele, mais chamativo ainda, naquele cenário desbotado.
Resolveu recolhê-lo e entregá-lo ao rapaz do caixa, que não quis recebê-lo, alegando ser normativa do local. E agora? Deixava na mesa ou levava? E se fosse algo valioso ou tivesse valor sentimental para alguém? Olhou para fora e viu o último passageiro e o motorista entrando no ônibus.
Dane-se! Levaria com ele. Dirigiu-se rapidamente à plataforma de embarque, entrou no veículo e atirou-se na poltrona vinte e três. Desembrulhou com capricho para não rasgar o papel e deparou-se com um grande livro, estilo enciclopédia, capa dura e cuja capa era ilustrada com a imagem de uma igreja em ruínas entalhado em dourado na capa. O título era “A Guerra Guaranítica”. Começou a rir com a ironia do destino. Quem sabe pudesse instruir-se ,até chegar ao destino e saber um pouco mais sobre o lugar. Ignorando os resmungos do passageiro ao lado, acendeu a lanterninha de teto e começou uma leitura, a princípio, tímida e mais contemplativa. O que descobriu, nas horas seguintes, dentro daquele ônibus, foi algo novo e espetacular e que, surpreendentemente, jamais ouvira falar.
Existira,em meados do século dezoito, um sonho de sociedade utópica na região das Missões. Os padres espanhóis em sua cruzada catequizadora na América, conseguiram amansar índios até então selvagens e perigosos, usando... a cultura!Muitos dos índios das Missões tornaram-se artistas talentosos, tanto em esculturas, como na música clássica. Em uma negociata escusa por partilha de terras entre Portugal e Espanha ,essas reduções foram aniquiladas, e os índios massacrados impiedosamente. Ficou impressionado com as ilustrações das esculturas da época, que se encontram no museu de São Miguel das Missões. Era algo “sui generis”. Os santos missioneiros, esculpidos pelos artesãos guaranis tinham os traços de sua raça, com os olhos puxados e o rosto ovalado.
Duas horas de leitura e sua perspectiva em relação ao lugar, mudara completamente. Algo daquele maravilhoso processo cultural devia ainda restar na região.
Cansado, desembarcou na rodoviária de Santo Ângelo, sua nova cidade por tempo indeterminado. Iria pesquisar mais e buscar resquícios que sobreviveram ao tempo.
Alguns metros após sair, quando ia adentrar um táxi, foi abordado por uma índia, em andrajos imundos, segurando um bebê no colo e mais duas crianças com cestos e balaios.
- Me dá um troquinho?

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O All Star vermelho!



*conto publicado no Jornal das Missões de 29/08/09

-Lázaro! Lázaro! Acorda que está na hora da escola.
A voz parecia vir do fundo, bem do fundo de uma caverna. Não se mexeu, apenas sentiu a sensação térmica baixar ao ter o cobertor e o acolchoado puxados e a janela aberta para a entrada da claridade.
Tentou entender o que estava acontecendo. Rosana devia ter se enganado, não era para a escola que deveria ir, era para a empresa. Só havia um pequeno detalhe- a voz era de sua mãe. Abriu os olhos lentamente para acostumar-se com a claridade, o teto de tabuinha azul-claro lhe era familiar. Que diabos fazia um teto de tabuinha azul-claro acima da sua cabeça? Era semelhante ao da casa que havia morado com os pais e a avó até os quinze anos, quando do acidente.
Definitivamente não estava entendendo. O certo era despertar com as linguadas da cadela Catita no rosto, a língua molhada e áspera. A cama com o colchão já deformado ao centro o fez sentir uma sensação de familiaridade. Por mais incrível que parecesse, o quarto onde havia despertado era o da casa dos pais. Não que isso fosse ruim, em absoluto. A complexidade da situação devia-se ao fato dessa casa ter sido demolida há vinte anos. Foi aos poucos reconhecendo uma a uma as peças da mobília. Lá estava o velho criado mudo com a gaveta e a portinha onde guardava seus preciosos gibis e tudo que julgava importante, a mesa com a velha máquina de escrever. O roupeiro de madeira pesada, que havia ganho de seu tio carpinteiro. E os pôsteres nas paredes. Lá estavam eles, Elvis, RPM,Ultraje.Sentiu um misto de nostalgia-medo.
Resolveu dar uma espiada pela janela. Não deveria ser mais que seis e meia, o tráfego na Marquês era pouco, mas avistou alguns Chevettes, Voyages e Monzas passarem com os faróis ainda acesos. A praça encontrava-se ainda na semi-escuridão devido às frondosas e antigas árvores. A calçada ainda não havia sido restaurada e refletia os primeiros raios do alvorecer em enormes poças d’água. Que porra de sonho é esse? Não podia negar que era um dos mais realistas que tivera até então, fielmente ornado de detalhes.
Resolveu levantar e testar até onde ia isso. Sentiu o corpo muito leve e os joelhos não lhe doíam mais. Caramba! Quanto tempo não sentia dor nos joelhos, principalmente no esquerdo. O cheiro que entrava pela fresta da porta era de bolinhos de chuva e café passado na hora. Coisas há muito não saboreadas.
Andou de chinelas até a cozinha, onde encontrou a mãe muito jovem, e a vó junto ao enorme fogão a lenha tomando chimarrão. A mesa já estava posta. Mas e o pai? Sabia que havia morrido, mas pela lógica do sonho que vinha tão exata até ali, devia participar. Sentou-se à mesa e começou a refeição, estava realmente faminto. Estranho até, pois depois de servir o quartel havia perdido o hábito e o apetite para o café da manhã farto.
Sua atenção foi dividida entre saborear o café e a observação de detalhes ha muito esvaecidos nos labirintos da memória. Enquanto segurava o pão tomou conhecimento da juventude do corpo ao vislumbrar os dedos finos e juvenis. Passou a mão no rosto e sentiu a pele lisa com pequenos e esparsos fios no queixo e acima da boca.
Notou um calendário de 1986, de uma loja de calçados com um enorme gato angorá na ilustração do mês de junho emuldurando a parede. Começou a fazer as contas mentalmente. 1986. Devia estar com quinze anos. Nossa! Sonhos não são tão reais assim. As duas mulheres não paravam de matraquear ao redor do fogão. Precisava ver se o mundo lá fora havia voltado ao ano da graça de 1986. Voltou ao quarto, vestiu a jaqueta de nylon preta, a calça de brim, o tênis All Star vermelho e passou pela cozinha em direção ao pátio. Já no portão ouviu a mãe gritar se não levaria os livros. Não respondeu e dirigiu-se à praça. Claro, ainda não havia sido restaurada. O banheiro emanava um cheiro horrível e de longo alcance, a calçada era irregular, mas a atração principal estava lá: o pouco sociável casal de jacarés e a horda de simpáticas tartarugas.
As pessoas começavam a passar apressadas e com o desastroso figurino dos anos oitenta. Seus pés formigavam de frio. Precisava explorar mais a cidade. Desceu pela Antônio Manoel e na esquina com a Marechal, deu com o Bar Continental. Que saudade do velho Continental, quantos pastéis e sorvetes secos o pai havia comprado para ele ali. Olhou para esquina de cima e avistou um caminhar conhecido e querido. Parecia ser o pai, mas não tinha certeza, vou lá. Não vou. Isso é um maldito sonho e só serve para me trazer recordações tristes.
De repente, um estalo repentino. O ano era 1986, estava no primeiro ano do segundo grau, e nesse ano foi colega da Aninha. Havia passado o ano inteiro contemplando platonicamente a menina sem coragem de abordá-la. Bem já que sonho não tinha testemunhas iria tirar proveito disso.
Subiu rapidamente até a esquina do Colégio Onofre Pires e se postou elegantemente, tirou do bolso um lenço que a mãe sempre insistira para levar para possíveis eventualidades, limpou caprichosamente os tênis All Star vermelhos e quando a garota passou acompanhada de uma amiga, falou em um tom surpreendentemente seguro:
"Aninha, preciso falar contigo..."