
Eles foram chegando aos poucos. Uns vinham solitários, outros em duplas, desciam das velhas carroças puxadas por animais muito maltratados.
Suas cabeças eram enormes, desproporcionais aos corpos esquálidos, que nadavam nas roupas extremamente imundas. Os homens usavam cartolas amassadas, rodopiando bengalas em um andar à Carlitos. As mulheres, com enormes coques no alto da cabeça, o cabelo empastado de óleo, os vestidos rasgados, de um colorido desbotado pela exposição ao tempo, faziam o par de um dueto desafinado, mesmo tendo emergido da mesma lama.
Tentavam andar em sintonia, subir os cem degraus, onde um mordomo afetadamente polido aguardava para conduzí-los ao enorme salão onde o banquete estava posto para cem pessoas. Muitos, debilitados por doenças infecciosas adquiridas na podridão fecal das sarjetas, traziam no colo crianças pequenas cobertas de icterícia. Os cães ladravam e se pegavam em um embate medonho, antevendo a disputa pelos restos de comida.
O tapete outrora vermelho, tornara-se marrom devido à sujeira que traziam impregnada em cada poro. Muitos não suportaram a longa escalada e caíam ora arrastando escadaria abaixo seus pares, causando uma gritaria louca que ecoava no vale de chão estéril em que o imponente castelo se localizava.
O cheiro acre e fétido, exalado de seus corpos se misturava ao odor do assado, enchendo suas bocas de uma saliva transbordante aos lábios rachados. Os trinta que conseguiram chegar ao topo, junto ao enorme portão com grades de um metal forjado em eras longínquas, foram instruídos a não levantarem as tampas das brilhantes e ovaladas travessas de ouro puro. Aguardassem o anfitrião que logo apareceu totalmente desprovido de vestimentas. O corpo frágil, o cabelo longo e esbranquiçado, a pele enrugada como que solta sobre os ossos. O diminuto orgão sexual caído sobre o enorme saco escrotal, que foi cuidadosamente ajeitado de modo ao ancião não sentar por sobre aquela anormalidade. Olhou para o mordomo, que anunciou o início daquele dantesco espetáculo. Podiam se servir. O barulho metálico dos talheres lembrava os preparativos para uma batalha medieval onde os sobrevinentes penavam em anos de abandono. Levantaram as fumegantes tampas, que lhes queimavam a endurecida pele das mãos, e deram com as vasilhas completamente vazias.
O anfitrião os observava com os dedos entrelaçados, servindo de suporte para a cabeça. A fisionomia matreira e divertida, principalmente devido aos olhos miúdos e muito astutos, abrangia a todos. Os convidados o olhavam, sem entender nada e com uma expressão ridícula, de decepção, estampada em cada rosto.
O velho explodiu em uma gargalhada histérica, que retumbou muito tempo por todos os recônditos do reino.