segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Banquete com mendigos!



Eles foram chegando aos poucos. Uns vinham solitários, outros em duplas, desciam das velhas carroças puxadas por animais muito maltratados.
Suas cabeças eram enormes, desproporcionais aos corpos esquálidos, que nadavam nas roupas extremamente imundas. Os homens usavam cartolas amassadas, rodopiando bengalas em um andar à Carlitos. As mulheres, com enormes coques no alto da cabeça, o cabelo empastado de óleo, os vestidos rasgados, de um colorido desbotado pela exposição ao tempo, faziam o par de um dueto desafinado, mesmo tendo emergido da mesma lama.
Tentavam andar em sintonia, subir os cem degraus, onde um mordomo afetadamente polido aguardava para conduzí-los ao enorme salão onde o banquete estava posto para cem pessoas. Muitos, debilitados por doenças infecciosas adquiridas na podridão fecal das sarjetas, traziam no colo crianças pequenas cobertas de icterícia. Os cães ladravam e se pegavam em um embate medonho, antevendo a disputa pelos restos de comida.
O tapete outrora vermelho, tornara-se marrom devido à sujeira que traziam impregnada em cada poro. Muitos não suportaram a longa escalada e caíam ora arrastando escadaria abaixo seus pares, causando uma gritaria louca que ecoava no vale de chão estéril em que o imponente castelo se localizava.
O cheiro acre e fétido, exalado de seus corpos se misturava ao odor do assado, enchendo suas bocas de uma saliva transbordante aos lábios rachados. Os trinta que conseguiram chegar ao topo, junto ao enorme portão com grades de um metal forjado em eras longínquas, foram instruídos a não levantarem as tampas das brilhantes e ovaladas travessas de ouro puro. Aguardassem o anfitrião que logo apareceu totalmente desprovido de vestimentas. O corpo frágil, o cabelo longo e esbranquiçado, a pele enrugada como que solta sobre os ossos. O diminuto orgão sexual caído sobre o enorme saco escrotal, que foi cuidadosamente ajeitado de modo ao ancião não sentar por sobre aquela anormalidade. Olhou para o mordomo, que anunciou o início daquele dantesco espetáculo. Podiam se servir. O barulho metálico dos talheres lembrava os preparativos para uma batalha medieval onde os sobrevinentes penavam em anos de abandono. Levantaram as fumegantes tampas, que lhes queimavam a endurecida pele das mãos, e deram com as vasilhas completamente vazias.
O anfitrião os observava com os dedos entrelaçados, servindo de suporte para a cabeça. A fisionomia matreira e divertida, principalmente devido aos olhos miúdos e muito astutos, abrangia a todos. Os convidados o olhavam, sem entender nada e com uma expressão ridícula, de decepção, estampada em cada rosto.
O velho explodiu em uma gargalhada histérica, que retumbou muito tempo por todos os recônditos do reino.

37 comentários:

Furdunço disse...

ESSA FOI BEM MANEIRA,MAS AINDA ASSIM O O HOMEM DO SAPATO 38 FOI MELHOR HEHEE!!!!

Vinicius Colares disse...

adoro a maneira como voce descreve as pessoas e a cena, porvoca uma imersão interessante no texto!
muito bom!

Felipe "Miro" 'Dreads' disse...

Texto 100% descritivo... não entendi nada mas blz hahah

Visita ae qq hora:
http://catalepsiaprodutiva.blogspot.com/

Anônimo disse...

Rapaz adorei seu blog, que post fantástico, história muito legal de se ler pela forma simples e direta de se escrever, adorei também a charge Pavarote, maravilha parabéns pelo blog.

BLOGdoRUBINHO
www.blogdorubinho.com.br
www.twitter.com/blogdorubinho

Mendy disse...

Muito interessante mesmo, a menira que vc escreve. Eu tenho muita dificuldade em descrever cenas, personagens. parabens!

lopes disse...

Seu conto foi um banquete literalmente!

O que me impressiona nos seus conntos é sua narrativa com elementos descritivos...

Viajei!

Espero ler outros, caa vez melhor!

http://identidade-cultural.blogspot.com/

Aline Diedrich disse...

O texto ficou muito bom. O jeito que descreve os personagens e o local onde se passa o conto é muito interessante...

diano disse...

a descrição do ser humano em condições difíceis

BRUNO disse...

Esse é, sem dúvida, o banquete dos desprovidos! O que mais me chamou a atenção foi sua construção dos personagens, a vida (ou a falta dela) sobrepostas na tela. Um primor de texto, meu amigo!

Abraços!

http://tempo-horario.blogspot.com/

http://twitter.com/brunobaxter

Léo disse...

demais fabio, gostei da dinamica, dignissimo esse texto!

deby disse...

O texto cheio de detalhes, onde se pode vislumbrar os acontecimentos, por si só ja é um fator fantástico. No entanto, é uma escrita toda composta de simbologias...o fato de o dono do castelo estar nu, denotando que nem se precisa da máscara da roupagem, para distingui-lo dos convidados miseráveis é um lance fora do comum...
Além disso, o fato de somente 30 dos 100, anteriormente escolhidos, conseguirem chegar ao final, tbém é um fato pra la de interessante pois tratava-se de uma espécie de concorrência, quem conseguiria, de fato, chegar lá...hehehehe
Esse é um texto denso, por isso, leva a muitas reflexões...
Parabéns, eu gostei mesmo, tu estás te superando...bjos

Will disse...

ótima narrativa,ser humano sofre mesmo

www.ruivosuburbano.blogspot.com

Zé Dylan Walker disse...

hehehe! Muito Bom! Os simbolismos bem constrídos!

Abraço!

☮Hippie Maluco disse...

Belo texto.
bem profundo

marjoriebier disse...

Delicatessen, mon coeur!!!

Lacobos disse...

Descrições incríveis, isso foi um teletransporte!

Uacht!
http://dadonanet.blogspot.com/

Rafael Bardo disse...

quase consigo ver o filme passando diante dos meus olhos!
Parabéns! vc descreve com perfeição...

Ique disse...

muito boa a sua maneira de desenhar a cena e deixar algo para ser pensado depois... pensado, ou entendido, ou decifrado, ou imaginado, ou discutido, ou relido...

carlos disse...

cara muito bacana o texto .;..
gostei..

Inez disse...

Adorei o texto, envolvente, rico em detalhes, me fez lembrar algumas ruas de São Paulo que após determinados horários ficam cheias de mendigos.

Thiago Nardi disse...

Insano velho!!
EU fico imaginando qual foi a porra da viagem desse anfitrião filhadaputa AUHEAISUHEiauhse

E tu escreve pra caralho bixo.. original pra caralho

Vini e Carol disse...

Seu texto me lembra um pouco da atual condição do Brasil...
Sujeira, pobreza, fome...
Lamentável.
Mas o texto em si ficou muito bom.

Abraço.

Anônimo disse...

Putz...Da onde tirou essa historia?kkkkkkkkk,vai ser talentoso assim aqui em Sampa,meu.Estudo cinema e fiquei tonto com essa tua viajem.Pena que more tão longe senão a gente poderia desenvolver algu projeto aqui.Legal descobrir talentos assim em um lugar tçao distante.Teu texto é surreal e altamente cienmatografico.Continue escrevendo porque vou voltar sempre agora que te descobri...falou.

Thunderbird

Niemi Hyyrynen disse...

Oie.

Você procura descrever detalhadamente as passagens do texto, essas riquesas valorizam muito.

Obrigada pelo "ácidos" .

Bjos.

roberyk disse...

Excelente Fabio. Confesso que esperava outro tipo de narrativa, ledo engano. Mais uma vez está de parabéns pela forma discretíssima de contar a realidade. Compôs um arranjo perfeito.

Abil. disse...

Cara, você consegue fazer parecer fácil escrever um texto descritivo! O.O

Parabéns!
http://processoburocratico.wordpress.com/

Telenotícias disse...

Muito legal seu texto! Parabéns!
Visite tb: www.blogtelenoticias.com

Um cara ai disse...

sensacional a maneira de descrever a cena(aposto que isso ja foi dito), notar a realidade, mesmo que suja, se faz necessario pra iniciar mudanças, chocar se faz necessario.

Lua disse...

eu gostei, vc descreve mto beem.
voltarei aqui.

http://norecreiozero.blogspot.com/ - 14/10


como vc conseguiu add música no blog?
se puder passar no meu blog me explicando, iria ser mto grata.

beeijos

Nicolas Louzada disse...

impressionante a capacidade descritiva de vocês. A gente viajava mesmo...principalmente através das peculiaridades da época descrita acima...parabéns

Augusto Bier disse...

Dá um roteiro pra um curta. Remete a Fellini e Boccacio (sabe "Decameron"?). Mas eu faria alguns cortes pra deixar as expressões mais contudentes. É um trabalho que só não fica melhor por causa de alguns penduricalhos. É bom ter amigos como tu tens, mas o perigo é a puxação de saco. Não aparece ninguém pra dar uns toques desconfortáveis - mas que nos fazem crescer. Todavia, parabéns de novo, animal! Quero ver mais.

Junior disse...

Adorei a descrição, muito melhor que a de alguns sites famosos por ai! muito bom mesmoo!

Bruno Costa disse...

Bem interessante o seu texto. Escreve muito bem e num tom irônico. Essa é a vida nua e crua. Uns rindo dos outros que choram. Mas assim, ninguém percebe. O seu texto ajuda, nesse sentido, fazendo ver algo meio escondido.
Parabéns.

Abraços

Rê Thuler disse...

Achei interessantissimo seu blog.
Não consegui ler apenas um post..
já add aos favoritos, e pretendo continuar lendo...!

Parabéns.

beijoo

Caaah. disse...

que interressante o texto!vc descreve muito bem, adorei o blog, vou ler outros post's tb!
té mais ;*

PENHA''' disse...

Você escreve de um jeito bem difícil de escrever, e escreve bem, confesso que em algumas partes eu fiquei um pouco confusa, rs, mas o texto é totalmente descritivo e é mesmo um banquete.

Nathacha disse...

Olá! No momento estou apenas te seguindo, mas prometo voltar e comentar em breve suas postagens!Agradeceria se seguisse o meu blog, assim criamos um vínculo que facilite a divulgação de ambos os blogs! passa lá?
http://medicinepractises.blogspot.com/