
Quando se ama, confia-se na pessoa. Tem de ser assim. Confiamo-lhes o que é nosso. Senão, para que amar?
Eu tinha decidido que amava dona Cecília, aliás, Cecília (ainda é difícil chamá-la só de Cecília). Farei algo... alguma coisa para ajudá-la. Ela está cada vez mais isolada de todos.
O patife do Polozzi aplicou uma surra na coitada pelo episódio da igreja. Prevalecido. Parece que machucou-a bastante, segundo o doutor Braatz contou por aí. Senti ganas de matá-lo, quando soube, mas desta vez, por mais que o sangue fervesse nas veias, consegui me controlar. Eu confiava na Cecília, na sua postura de enfrentar todas as desfeitas que o povo daqui vinha lhe inflingindo. Ela não havia pedido ajuda a ninguém, buscando resistir sozinha a uma situação onde poucos não sucumbiriam. Eu confiava nela. Em sua casa, ela olhou nos meus olhos e disse: você é um homem de valor. Eu me sentia menino, mas passei dias pensando nessas palavras. Será que somente uma mulher que enxerga o mundo de longe, hostil a si, poderia ter uma visão mais privilegiada das coisas que a rodeiam?
Resolvi amá-la por isso. O Júlio diz que é fácil comprar meu amor, só que o sentimento já estava em mim há muito tempo, talvez desde quando era criança.
Meu amigo diz que sou louco, mas quem não enlouquece com as incoerências diárias do nosso distrito? Aqui, a maioria das pessoas pensam somente em seu bem-estar, o que não está de todo errado, acho eu. Só que não há resquícios de generosidade nelas. Vou ser injusto dizendo que é só aqui. Sei que o egoísmo é um sentimento universal, embora eu pouco conheça, além das fronteiras do município.
O Polozzi bebe muito, aliás, a maioria dos homens daqui tem esse problema. Geralmente, uma garrafa de canha os acompanha durante o dia. Alguns escondem, mas o bafo, ao falar, os denuncia. O vinho é muito consumido também pela gringaiada. Eu gosto do vinho, bebo de pouco, quando íamos à cascata. Os guris até exageram e começam a fazer estripulias na água. Mamãe briga com meu pai quando ele compra caninha, mas dias desses encontrei uma garrafa escondida no galpão.
O Neco da Merência anda rondando a ferraria, passa como quem não quer nada. Ele me olha de canto de olho, empurrando um carrinho de mão, vazio. Acho que pode estar a mando do Polozzi, para me assustar, na melhor das hipóteses. Já circulam boatos que freqüento a casa, quando aquele traste sai. Aqui, as notícias correm rapidamente, algumas verdadeiras, outras aumentadas no boca a boca. Bom, de qualquer forma, acho que o Neco quer me pegar de jeito, em alguma situação, para me bater. Se for isso, provavelmente em minha próxima viagem à cidade, amanhã, ele vai agir. O Júlio diz que estou paranóico, mas o coitado não enxerga maldade nas pessoas.
Vou comprar um presente para Cecília, raspei minhas economias, as quais junto a algum tempo, e vou em uma casa de comércio forte.
Ela ainda desconhece, mas não está sozinha.
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* Este romance foi baseado em uma carta que faz parte do acervo municipal.O fato ocorreu no distrito do Comandaí,interior de Santo Ângelo,na década de 50,do século passado. A doença então conhecida como lepra, apareceu isoladamente, mas deixou as marcas que a acompanham desde os tempos bíblicos: preconceito e medo.Fiquei conhecendo através do ótimo blog da amiga Eunísia Killian.Confiram.
O link é http://meuseuseseus.blogspot.com/ .
Agredeço também ao polivalente Darlan Marchi,que desempenha funções junto ao Arquivo Público Municipal,pelo valioso relato colhido junto a pessoas ainda vivas,de suas relações familiares e que residiam no distrito, à época,e que forneceram detalhes minuciosos e dramáticos sobre o caso.