
O supercílio direito estava aberto e o sangue tornava o olho esquerdo praticamente sem função. Achava que havia fraturado o nariz, pois sentia algo solto cada vez que puxava o ar. Que bela imagem teriam pela manhã os fregueses das barras de gelo.
O rosto estava tomado de equimoses devido aos socos. Aquele mestiço que vinha representando São Borja o havia castigado enormemente. Tinha quase dois metros de altura e era surpreendentemente rápido para o tamanho. Quando sua esquerda passava pela guarda causava um grande estrago. Diziam que treinava o dia todo em uma academia montada em uma fazenda de um dos Vargas, que o tiraram dos brutais trabalhos da lida campeira e investido em seu potencial. O que não era seu caso.
Trabalhava durante o dia entregando barras de gelo.Começava cinco da manhã saindo da fábrica que ficava no extremo sul com a carroça abarrotada de entregas para a cidade inteira. Seu condicionamento era descarregar as enormes barras para as geladeiras dos lares santoangelenses.
A figura corpulenta e simpática o tornaram querido por todos os cantos do município.
Quem descobriu seu talento para a luta foi um capitão carioca que ficara impressionado com o porte físico avantajado e a grande força para aquele serviço braçal. Convidou-o a treinar junto com militares e pouco tempo após pegar as técnicas básicas do boxer já era temido pela potência dos golpes. Quando conseguia encaixar sua direita em um golpe justo dificilmente o adversário ficava em pé.
Logo já representava Santo Ângelo em lutas que se realizavam em ringues montados junto ao Cine Apollo, nos Clubes Gaúcho e 28 de Maio.
A luta daquele dia não estava transcorrendo do jeito que esperava. Acordara as três da manhã e já não se sentia muito bem. Talvez fosse um princípio de resfriado. Os últimos dias vinham sendo de preocupação em razão da proximidade do aniversário do filho de oito anos. O menino dócil e educado nunca reclamara presentes antes. Geralmente ganhava algum agrado em sua data e sempre mostrava-se feliz, fosse qualquer coisa. Desta vez tinha sido diferente. Uma semana antes havia lhe pedido uma réplica de ônibus que era construída por um marceneiro que só construia sob encomenda. O preço era elevado para seus ganhos e despesas com a casa. Era privilégio de meninos abastados. O que o sensibilizara era a determinação do garoto que anunciou resoluto que seria motorista de ônibus, como ele próprio fora há anos.
Aquela luta que definiria o campeão missioneiro talvez possibilitasse a extravagância
da compra da réplica. Não havia falado para esposa. Ela seria contra com certeza. Mas ele sabia da importância daquilo, para o filho e para si próprio.
O que não imaginara era que enfrentaria um lutador profissional e muito bem preparado. Havia apanhado desde o primeiro round. Procurou ziguezaguear e fugir da temível canhota do mestiço, mas em duas oportunidades fora atingido em cheio.
Só ficara em pé por milagre. Sentira uma frouxidão nas penas e sentiu o mundo girar,o gosto de sangue inundando a boca. O supercílio abrira em um talho obsceno e inchara imediatamente, deixando-o somente o olho direito para se esquivar da saraivada de golpes. Sentia vontade de vomitar.
O tempo de descanso o salvou.
Retornou procurando manter uma distância segura do punho esquerdo do mestiço, mas sua mobilidade já não era a mesma. A imagem do filho com o brinquedo na mão e o rostinho de felicidade veio em sua mente. O punho do oponente fez vento perto de sua cabeça. Concentrou. Manter a distância e especular um contra-ataque era sua única chance diante daquela máquina de bater. Quanto mesmo ganharia com a luta? O cérebro já estava ficando confuso e ele sabia que tinha pouco tempo.
O adversário parecia irritado por seus golpes não estarem entrando e descuidava cada vez mais da guarda. Sentia uma dor rascante em uma das costelas. Precisava concentrar e achar o momento certo.
Conseguiu mesmo com o rosto deformado esboçar um sorriso matreiro para o mestiço, que com os olhos inflamados de indignação lançou-se em um ataque desarvorado, desferindo golpes a esmo. Então ela apareceu. Vislumbrou a brecha não muito grande mas suficiente para Domingão penetrar com sua poderosa direita, que entrou de baixo para cima, encontrando a ponta do queixo do mestiço, que tentou firmar as pernas, retrocedeu dois passos, vergou os joelhos e desabou seus cento e dez quilos sobre a lona...
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*Esse conto é muito especial para mim, pois o sr. Domingos de Oliveira Fortes era natural de São Luiz Gonzaga, como eu, e também adotou Santo Ângelo como como cidade do coração. Em seu histórico como lutador registra-se cerca de 38 lutas oficiais da quais perdeu 6, empatou 2 e venceu 30, sendo reconhecido o campeão missioneiro de boxe. Talvez nessas minhas maquinações eu tenha encontrado uma das figuras mais interessantes e emblemáticas da história da cidade. Foi motorista de ônibus e posteriormente entregador de barras de gelo. Seu filho,o menino do texto e meu amigo "seu" Adão Fortes, motorista aposentado da linha Santo Ângelo-Porto Alegre detém o título de Motorista Padrão do Sul do Brasil e hoje desenvolve um abnegado serviço social de conscientização por um trânsito mais seguro.
Domingão, como era conhecido, nasceu em São Luiz Gonzaga em 1913, mas há controvérsias em relação à data.Faleceu em 06/02/1993.

