
Hoje, acho que cometi uma bobagem. Menti, em casa, dizendo que iria à casa do Júlio, amigo que também irá se alistar, e fui até o bolicho dos Polozzi. Fiquei com lama até os joelhos, o que causou certa irritação em minha mãe. Queria saber como fiquei naquele estado.
Foi um ato intempestivo, do qual me arrependo. Como havia imaginado, o bolicheiro estava "fulo", e foi ríspido ao responder às perguntas sobre o estado de dona Cecília. Comprei palha para os cigarros de papai, com alguns tostões, que achei nos bolsos de uma calça que ele havia posto para lavar. Vou misturá-los ao estoque dele e torcer para que não note a quantidade. Bom, talvez seria melhor,se eu os jogasse fora.
Havia quatro pessoas no estabelecimento. Vitorino e a esposa, esta quando me viu, beijou-me, como faz desde que me entendo por gente. Um beijo na bochecha, molhado. Arre! Não tenho como escapulir da velha. O Sacolinha, que já estava saindo com uma lata de querosene, e o Neco da dona Merência, de canto, só observando,claro,com o copo da cachaça ao lado. Dizem que o solteirão é o maior linguarudo da cidade, além de ter fama de calaveira. Acompanhou-me com o olhar, desde o momento que entrei, e assim, seguiu todos os meus movimentos. Ele trabalha com construção, e notei um madeirame, ao lado da casa.Será que vão aumentar o bolicho?
O Polozzi não tocou no assunto da viagem de volta, do porquê de não lhe esperarmos,além de ter sido monossilábico sobre a esposa. Estiquei a vista sobre a porta de acesso ao interior da residência,porém a cortina atrapalhou-me e não consegui ver se a mulher estava por ali. Tive a impressão de ver um vulto se movendo. Polozzi, para encerrar o assunto,perguntou-me se era só a palha. Fui saíndo, mas notei um sorriso irônico no rosto do Neco. O que será que o muquirana estava pensando? Boa coisa não era, com certeza. Havia se envolvido em uma briga, em umas carreiras,lá para as bandas de Giruá, há um ano, e acabou esfaqueando um homem. Até o delegado andou por aqui, visto que o pobre diabo acabou morrendo.
Legítima defesa foi alegada, por ele, e confirmada por meia dúzia de gambás que o acompanhavam. Parece que corre um processo,mas ninguém sabe direito, nem ele fala sobre isso. A mãe dele, dona Merência, tem problemas de saude. Teve uma congestão, e uma parte do corpo ficou paralisada. Minha mãe gosta muito dela, e a visita com frequência. Papai não gosta. Tem ciúmes do Neco, e com razão, visto que o traste despe, com os olhos, qualquer mulher que passe na sua frente. Geralmente, as visitas de mamãe à casa de dona Merência, acabam em discussão, e com os dois emburrados.
Devo estar com algum problema,ou falta de vergonha na cara. Com tanta coisa que eu poderia estar fazendo, para ocupar produtivamente meu tempo, estou procurando sarna para me coçar. Mas algo me diz, que há algo errado, em toda essa situação. Ainda não sei exatamente o quê, ou se sei, devo estar enganando a mim mesmo.
* Este conto foi baseado em uma carta que faz parte do acervo municipal.O fato ocorreu no distrito do Comandaí,interior de Santo Ângelo,na década de 50,do século passado.Fiquei conhecendo através do ótimo blog da amiga Eunísia Killian.Confiram.
O link é http://meuseuseseus.blogspot.com/ .
Agredeço também ao polivalente Darlan Marchi,que desempenha funções junto ao Arquivo Público Municipal,pelo valioso relato colhido junto a pessoas, ainda vivas,de suas relações efamiliares que residiam no distrito, à época,e que forneceram detalhes minuciosos e dramáticos sobre o caso.

