
De repente, a vontade irrefreável. Iria devorar a vizinha do apartamento em frente. Estava resoluto. Que as convenções e regras fossem às favas. A mulher daria uma belíssima refeição.Uma não.Várias. Poderia armazenar no enorme freezer,e passar muito tempo se deliciando. Bom, para dizer a verdade, não sabia se realmente a carne humana era saborosa. A pesquisa pela Internet aguçou ainda mais sua curiosidade sobre rituais antropofágicos entre os povos indígenas. Alguns meses estudando o assunto e ainda não chegara ao ponto. O seu ponto. O porquê da salivação e a sensação indefinível, que ficava oposicional entre uma atração física e intelectual pela mulher, e uma rejeição por tudo que ela representava.Mas o que mais, especificamente, aquela mulher, que encontrava no elevador, carregada de livros e pastas, significava? Boa pergunta. Estava ficando louco? Talvez. A expressão de curiosidade do vendedor da loja de equipamentos para açougues, quando pediu explicações de como separar membros, evitando cartilagens mais espessas e o uso de vários tipos de facas e cutelos, talvez seu semblante ao imaginar o corpo da mulher sobre sua mesa, totalmente entregue, o denunciasse. Dane-se!Ia assumir para si o risco. Sabia que aquilo não tinha como acabar bem. Poderia, e muito provavelmente, seria preso. Ou não!Existia a possibilidade de fugir. Mas algo lhe dizia que o hábito recém desperto o acompanharia.
Mas havia o acompanhamento. Junto com a carne, consumiria pequenos pedaços de cada página daqueles livros, de autores autônomos de pensamentos -por algum motivo, eles eram uma ameaça- e aquele orgulho dela em mostrar que bebia daquela escrita, o irritava e fascinava. Os cd´s que ela escutava em um volume que invadia o corredor e sua mente. Árias. Teria que moer o acrílico e transformar em pó para consumir.
Convidá-la para um jantar em seu apartamento, foi relativamente fácil. Ele sentiu que algo nele a atraía, talvez algo primal, o fascínio da presa pelo predador.
O ritual estava todo preparado. Talheres de prata, as velas,o vinho e embaixo da mesa, toda a parafernália necessária para a execução do ritual.
A campainha tocou.
Ele ansioso, abriu, e lá estava ela,com um bonito vestido cor de sangue.