domingo, 4 de julho de 2010

Em carne viva XIV !





- Como vai sua mãe?

O sotaque do doutor Braatz era carregadíssimo apesar de estar há muitos anos em terras brasileiras.

- Está bem. Apenas pegou uma gripe forte.

Ele gostava muito de mamãe e cada vez que visitava a vila, o chimarrão à soleira da nossa porta era obrigatório. As conversas geralmente recaiam sobre as diferenças entre a nossa cultura e a alemã, algo que foi um problema grande ao doutor em seus primeiros tempos nas Missões. Isso rendia muitas gargalhadas.

A decoração da sua sala era austera, em tons cinzentos e muitos livros espalhados pelos móveis do ambiente. Eu estava com dificuldade de expor o motivo o qual estava ali.

-Os ferimentos ainda doem?- perguntou.

-Na verdade não incomodam há algum tempo...

Ele me olhou sem entender.

- Doutor, tenho um assunto sério e talvez o senhor consiga me ajudar.

Ele retirou os grossos óculos e colocou-os sobre a mesa.

-Pois diga rapaz.

-É sobre a mulher do Polozzi...

Ele franziu o cenho, visivelmente contrariado.

- Vou ser bem direto contigo. Tua mãe comentou das confusões que tens arranjado. Isso é coisa que não te compete então procura não mexer com isso.
Dei um tempo, buscando argumentos para continuar o assunto.

-Gostaria de lhe fazer uma pergunta. É só isso.

Pegou os óculos entre as mãos e deu um longo suspiro.

- Tá bom, tá bom. O que é? Fala logo.

Eu não tinha certeza se era realmente aquilo que desejava saber.

- Ela tem chances de cura?

Devo ter colocado o velho alemão em uma situação que todo médico teme. Ele não sabia a resposta, não tinha controle sobre aquilo, mas procurou ser firme.

- Acho que sim, tomara. Estou cuidando muito bem dela, pode apostar. - olhou para a janela, de onde se avistava um que outro automóvel passando. – o problema é aquele imprestável do marido dela. A coitada ainda se recupera da surra que levou semana passada. Se continuar se incomodando assim, sua recuperação será muito difícil.

Como eu imaginava ela precisava mais que nunca de uma solução. Como eu farei isso ainda não sei, mas tem de ser rápido, urgente como o sentimento que me inquieta. Finalmente eu teria que enfrentar a situação como um adulto, com todo o ônus que cada atitude desencadeia. Poderei sim decepcionar algumas pessoas, entre elas meus pais, que são muito importantes para mim, mas é a prova de fogo e não recuarei.

5 comentários:

luiz scalercio disse...

cara bellissimo
texto gostei
muito bem
escrito.

roberyk disse...

Parece que a encruzilhada da vida apareceu para o guri, o momento de escolher o caminho. Será que ele vai matar o Polozzi?

José Sérgio Bechler disse...

Pois é... Interessante a indagação do Roberto, aí em cima. Foi justamente o que eu pensei quando terminei a leitura. Mas não sei se um assassinato combina com o personagem.... O negócio é esperar os próximos capítulos! heheh!

Eunisia disse...

Concordo com o Bechler,vamos aguardar os próximos capítulos.

deby disse...

Parece que ele está decidido e não recuará mais...uma característica que sinto nesse garoto é de que ele segue seus próprios pensamentos, apesar da pouca idade, deixa no ar um "quê" dúbio entre autonomia e ingenuidade...
O que vem por ai?