terça-feira, 21 de setembro de 2010

Em carne viva XVII !




Sem reação. Eu não pensava em fugir, até por que era impossível.

O Polozzi e o Neco bloqueavam completamente a porta. Vislumbrei a janela, quem sabe um ato desesperado, mas até abrir o postigo eles me picariam a facão.

Estava em um beco sem saída e havia grande chance de não sair vivo dali. Não haveria final feliz para aquela história. Muitas coisas passam pela nossa cabeça em momentos assim. Eu não teria sido egoísta com minha família, me expondo daquele jeito e metendo os pés pelas mãos?

Os dois apenas me olhavam, calados, como a cercar uma rês perdida no campo. O cabo do revólver do Neco a pontear a camisa de sempre.

Encarei os dois. Papai se orgulharia de mim. Não frouxaria. Estava realmente disposto a me jogar contra eles, mesmo desarmado.

Achei estranha a postura pouco agressiva dos dois e logo descobri o porquê daquilo.
O delegado Nogueira entrou acompanhado de mais um policial. Polozzi e Neco abriram caminho e o delegado já estava tão perto de mim que podia sentir o hálito de álcool em meu rosto.

- Eu tinha certeza que tu voltarias aqui. Era uma questão de tempo. Entrou em uma grande encrenca, rapaz. O Polozzi registrou o sumiço de dona Cecília e tenho fortes razões para achar que ela foi morta.

Ele só podia estar brincando, ou melhor, blefando. Como não respondi, ele prosseguiu:

- Os rumos da investigação foram para um lado que te colocam como único suspeito do desaparecimento dela.

Finalmente minha voz saiu.

- Espero que não seja baseado na conversa desses dois animais aí atrás.

Polozzi estava mais vermelho que nunca.

- Filho da puta! Fala o que tu fizeste da minha mulher...

Ia avançar contra o desgraçado, mas o delegado foi enérgico mandando os dois canalhas esperarem no lado de fora.

- Ah, Polozzi, me passa esse troço aí. –disse, apontando para a mão direita do gringo, que contrariado alcançou o relógio de bolso ao policial e se retirou, resmungando algo incompreensível.

Nogueira pigarreou e teve um acesso de tosse antes de continuar:

- Este relógio tem as iniciais do nome do teu pai, e tenho certeza que ele, correto como é, reconheceria como de sua propriedade.

- Um relógio é o bastante para me colocar como suspeito de um fato obscuro como esse, delegado? E se dona Cecília estiver viva e aparecer de repente? – perguntei.

Ele passou o objeto para o opulento parceiro que estava dois passos ao lado.

- Achamos algumas peças de roupas em um matagal próximo ao rio. O Polozzi reconheceu como sendo dela. Estavam rasgadas e com manchas de sangue.

Eu já não tinha tanta certeza que ele blefava. Talvez o próprio Polozzi tivesse plantado aquelas provas e o policial caído feito um patinho.

Ele continuou:

-Tenho uma linha de pensamento que casou muito bem com as provas materiais que temos por enquanto.

- E posso saber qual é? - me encorajei a perguntar.

- Tu e dona Cecília se tornaram amantes – diminuiu o tom da voz para Polozzi não escutar de fora- Sei que Polozzi abandonou um pouco sua responsabilidade de cuidar da mulher doente, foi aí que tu entrou na história, bancando o caridoso. Acho que ela foi tua primeira mulher e te apaixonaste. Ela deve ter percebido o quanto errou quando os boatos sobre as tuas visitas noturnas se tornaram mais fortes até que essa doença escabrosa que a próxima foi acometida. Ela te rejeitou e tu perdeste a cabeça e fez essa barbaridade.

- Que barbaridade é esta, delegado? –desafiei.

-Ainda não sei ao certo, piá de bosta, mas te garanto que na gaiola arranco uma confissão. Valdemar, leva esse estrume para dentro do carro.

2 comentários:

José Sérgio Bechler disse...

Agora a coisa vai começar a pegar fogo! Pra mim esse Polozzi tem culpa no cartório. =)

Abraço!

roberyk disse...

Cara, não sei te xingo ou o quê. Cada capítulo é recheado de reviravoltas, umas mais escabrosas que as outras. Quando se pensa que o rumo é um, tu vem e muda tudo.
SENSACIONAL

PS: Não me arrisco a dar pitaco, tu tá muito sem vergonha, hehehehe