domingo, 6 de março de 2011

Janis tem uma arma !



A vida de repente começou a passar como um filme em sua cabeça.
O corpo todo doía. O que havia restado dos dentes da frente estava frouxo, as costelas provavelmente estavam quebradas, pois cada vez que tentava inflar os pulmões era como se milhares de pequenas agulhas lhe penetrassem o tórax. Uma das orelhas havia sido rasgada e os lábios deformados ajudavam a deixar sua face com aparência de boneca inflável. Sentiu vontade de rir, mas a dor era intensa.
Em cima da cama, fotos de quando ainda era um menino, usando aqueles calções de futebol listras dos lados, verde. Era um estranho no ninho. Seis irmãos, todos homens, todos mais velhos, todos machões. Só ele daquele jeito. Como uma coisa dessas pode acontecer? Ainda lembrava o pai, com aquele bigodão, levando as mãos à cabeça e olhando para o teto de tabuinha, como a questionar um deus muito citado pela mãe, superprotetora. Ele era frágil ela sentia dever de protegê-lo. Como um ser como ela pode ter vivido tão pouco e deixá-lo entregue à própria sorte?
Na outra foto tinha uns quinze anos, o cabelo na altura dos ombros e as feições delicadas já o distinguiam dos outros meninos. Estava em um acampamento de férias. Lembrou com vivacidade o professor de Ciências entrando na sua barraca depois da fogueira e da roda de violão. Ele o compreendia e não precisava ter medo, mas não contasse a ninguém.
Em outra, tirada por um amigo igual a ele, na rodoviária. Tinha uma expressão de felicidade com uma mochila nas costas. Era estranho, ele nunca fora feliz e ali naquele retrato não se reconhecia. Estava de partida naquela ocasião. Apenas poucas vestimentas e cem cruzeiros, último gesto “benevolente” do pai: “Suma daqui. Você é uma vergonha para nossa família.”
A mãe já não estava mais presente e tinha sido o único elo com aquele lugar. Partiu decidido. Que se fodessem, desgraçados. Nunca precisou deles.
A cidade grande, a grande prostituta, como ouvia o pastor falar, era um organismo vivo pronto para engolir quem quer que fosse. E assim foi.
Sobreviveu fazendo programas com taxistas nas imediações de um hotel do centro. Apanhou por vezes, lhe tomavam o dinheiro, mal conseguia comer e morava embaixo do viaduto.
Foi então que surgiu o Serjão. Primeiro lhe aplicou uma surra terrível por biscatear e não repassar uma comissão, afinal a área era dele. Todo mundo temia o Serjão, desde prostitutas, vagabundos e até gigolôs menores precisavam do aval dele para aplicar pequenos golpes, se prostituir ou apenas vender bugigangas.
Certo dia olhou o Serjão deitado na cama, fumando, o peito muito peludo e a tatuagem de tigre no ombro e resolveu perguntar por que havia escolhido ela. O Serjão deu de ombros e depois de uma longa baforada disse: “não preciso dar explicações para traveco...”
O gigolô financiara tudo, duzentos e cinqüenta de silicone, tratamento com esteticista, lentes de contato, bronzeamento artificial, mega hair e a honra de ser sua “esposa”. Se contasse que o Serjão gostava de dar também, o mataria sem dó.
Foram três anos de uma vida como até então não conhecia. Até diarista tinha. O Serjão às vezes sumia dois ou três dias e quando voltava, passavam horas e horas na cama. Era outro homem, uma pessoa de sentimentos.
Aí chegou o pesadelo. Traficantes de peso resolveram assumir a área e todos os negócios escusos da região. O Serjão violento como era, não entregaria de mão beijada um negócio que ele forjou a ferro e fogo. Acabou matando dois deles. Tiveram que se esconder no subúrbio. Ele planejava mais duas ou três ofensivas e eliminaria “os cabeças” como se referia aos inimigos.
O troco aconteceu quando foram a uma pequena padaria comprar leite. Foi tão rápido que não tiveram como reagir. Um Ômega preto, três homens armados até os dentes os “convenceram” a entrar no veículo.
Um depósito de combustível adulterado, o Serjão preso a uma cadeira. Os traficantes queriam de qualquer maneira os “pacotes”. Começaram a torturá-lo, sua face aos poucos se transformando em uma massa disforme e ele firme. Resoluto em não falar. “Então não vai contar? Olha o que vamos fazer com tua mulherzinha...”
E avançaram sobre ela.
Foi um misto de curra e tortura brutal, onde usaram até um cabo de vassoura. Um dos desgraçados arrancou um brinco, deixando a orelha partida em duas. Quando pensou que não agüentaria mais, um dos homens notou que o Serjão não respirava mais. Então usou as forças que lhe restavam e se embolou com um deles. Conseguiu tomar a pistola. Dois tiros. Não sabia que atirava tão bem, ou talvez fosse apenas sorte. Matou dois e o terceiro se protegeu atrás de um pilar. Arrastou-se até o carro, dirigiu por trinta metros e resolveu atirar nos enormes tonéis de gasolina. A explosão foi de proporções cinematográficas que acompanhou pelo espelho retrovisor.
De novo o quarto. As fotos e a lembrança do Serjão.
Era uma sobrevivente, desde quando tinha lembrança. Continuaria subsistindo, por bem ou por mal, quisessem ou não.
Levantou-se com dificuldade, foi até a geladeira e colocou gelo dentro de um saco.
O lábio e a gengiva ardiam em fogo.
A partir dali seria chamada Janis Três Tiros.
Havia oito quarteirões que precisavam de um novo patrão...

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*Conto também postado no site Esquina do Escritor/Beco do Crime

10 comentários:

Macaco Pipi disse...

que poético
o cara é bom!

Tati disse...

A narrativa é ótima... apenas fiquei na dúvida se faz parte de uma série, se há uma continuação.

A trilha [com Aerosmith] casa muito bem... tudo muito bem pensado!

Giulietta disse...

Adorei a narrativa. Fala muito bem sobre a violência, a discriminação e a dificuldade que é viver.
Gostei muito do blog, você escreve muito bem. Estou seguindo.

Abraço. :)

Gabriel Pozzi disse...

olá Fabio!!!
muito bom o conto, gosto de seus textos porque eles são crus, não tem enfeites, você criou a realidade de um rapaz que foi ganhar a vida na cidade como travesti e a expôs, ponto final.
fazia tempo que eu não lia um conto de ação, ultimamente na blogosfera estou mais habituado a ler contos de romances, de metáforas, de drama, enfim, curti o texto sobre a Janis :)

abração!
depois volto aqui para comentar sobre seu comentário no meu blog :D
http://songsweetsong.blogspot.com/

Alex Azevedo Dias disse...

O sentimento de inadequação e a resiliência - capacidade estética de reinventar a vida na adversidade -, não está restrita a condições esdrúxulas, no sentido de ser uma característica do sujeito humano, em suas fragilidades e impotências. Como metáfora posso ler numa maior abrangência, pois a alteridade radical, está em cada mínimo ato que seja, mais trivial, da realidade psíquica de cada um, mesmo que seja um homem invisível, sem nenhum destaque na vida. Gosto muito do seu estilo. Abraços...

armazemdodvd disse...

Legal o seu blog, to seguindo. abraco
Mauricio

José Sérgio Bechler disse...

Legal, Fábio! Daria um bom roteiro. Alías a influência cinematográfica é uma marca nos contos que escreve.

Parabéns!

Lou James disse...

Pô, Tarantino já tem outro roteiro... (rsrsrs)
É complexo p/ o escritor criar uma paisagem urbana tão inóspita e ao mesmo tempo tão sedutora.
Excelente como sempre!
Abrsss.

Gabriel Pozzi disse...

como eu disse, eu voltaria, agora ouvi o cover do radiohead que vc falou da música do 007, e poxa, muito bom mesmo, acredita que eu nunca tinha escutado antes???

apenas encontrei versões ao vivo, vc tem alguma de estúdio?

abraço!!
http://songsweetsong.blogspot.com/

Gabriel Pozzi disse...

Grande Fábio!
voltei pela terceira vez (hahaha não aguenta mais me ver, aposto) aqui no mesmo post, só pra um comentário: que bacana, as baladas que vc ia tocava Joyride!!!
acho que das agitadas é minha favorita do Roxette, e tenho quase certeza que essa eles tocam lá no show!! assim espero! hahahaha

pronto, só isso!!!
abs
http://songsweetsong.blogspot.com/