
Definitivamente aquele dia tinha iniciado mal. Seu abdômen estava inchado e doía, a boca seca ansiava por água, precisava muito de água, mas os pensamentos não se ordenavam. Não sabia exatamente onde se encontrava. Os olhos semi-cerrados procuravam obstruir a entrada da luz que causava uma dor contundente nas têmporas. A princípio não sentiu os pés. Tossiu com dificuldade e buscou apoio nos cotovelos para erguer o corpo e sentar-se. Reconheceu a marquise do banheiro público da praça onde abrigava-se das intempéries do tempo.A visão ainda borrada não localizou o saco com o que arrecadara na tarde-noite anterior. Alguém roubara. Tinha que se cuidar dos companheiros, pois naquela vida na rua não podia confiar em ninguém.
Ultimamente aquele pessoal generoso da zona norte havia diminuido a doação em dinheiro e lhe davam apenas pão, comida, roupas e remédio, o que era uma merda, pois não conseguia promover nenhuma orgia etílica. Ficava à mercê da boa vontade dos companheiros para beber.
Não estava bem. Durante o resto do dia se arrastou perambulando nas residências que ficavam nas redondezas em busca de alguém que lhe desse algum. Precisava de cachaça para pensar melhor e segurar a tremedeira que lhe tomava o corpo. Exalava um cheiro fétido e sabia disso, pois tinha defecado na roupa involuntariamente. Precisava banhar-se e trocar as roupas, mas o problema é que teria de caminhar umas quatro quadras até o asilo onde guardava seus poucos pertences e esporadicamente pernoitava e estava muito debilitado. Desistiu do intento e se atirou na sarjeta.
A noite se aproximava e com um esforço enorme, conseguiu cambaleante retornar até a marquise do banheiro da praça. Desabou junto à porta já fechada.
Não perdeu a consciência com a forte pancada do piso gelado na cabeça. Vaso ruim não quebra muitas vezes lhe disseram. Não havia encontrado o homem e a mulher que geralmente lhe acompanhavam naquela espécie de perambulação sem rota, regada a bebida e que geralmente resultava em brigas. Pelo menos tinha companhia. Quanto tempo estava nessa situação? Já não lembrava mais datas e nem se importava com isso, aliás talvez nada mais importasse a ele. Havia chegada naquela cidade a muito tempo com a esperança de encontrar vida digna e trabalhar em alguma das indústrias, sonho que se revelou intangível. Sua pouca instrução e a falta de "contatos" e conhecimento o empurrou para uma rotina de viver de "bicos", o último que lembrava além de catar papéis era a venda de verduras. Acabou vendo a cidade que lhe acenou com a possibilidade de trabalho minguar e ver suas fábricas aos poucos irem fechando suas portas e centenas de pessoas ficarem desempregadas e terem de ir embora, deixando aquela terra que embora não tivesse nascido ali, nunca encontrara povo mais acolhedor.
Estava encrencado. Tinha certeza disso. Aquela madrugada prometia ser a mais fria dos últimos tempos. O porém é que seu corpo não reagia e não havia onde ir buscar energia para se mexer. O único movimento que conseguia era com as órbitas oculares, que presenciavam a noite ameaçadora chegar. Talvez a ronda dos assitentes sociais o encontrasse ali. Eles haviam alertado todos cerca de três dias antes que um frio quase glacial se aproximava, mas ele ignorou completamente. Estava obcecado em recuperar a mulher, já estava ate disposto a dividi-lá com o outro. Talvez ela desse para ele, talvez conseguisse uma ereção, coisa rara nos últimos tempos. Sabia que se não conseguisse sair dali morreria de frio, pois não estava com roupas quentes e seus calçados haviam desaparecido.
Um tremor que começou tímido foi gradualmente aumentando e se tornou um violento sacolejar. Sentiu algo partindo ou desmanchando dentro do abdômen. Um gosto de fel invadiu a boca e a respiração foi se tornando esparsa. Irônicamente o frio foi desaparecendo e ele foi sugado para dentro de um túnel escuro do qual tinha certeza que não voltaria...

