sexta-feira, 17 de julho de 2009

Acerto de contas! (II)



Rincão dos Bugres, interior de São Borja, 1937.

A mulher despertou com o cantar dos galos. Devia ser cinco horas da madrugada. O marido já havia saído. Correu com o olhar o interior do humilde rancho de chão batido e avistou somente os pés de João por trás da cortina de chita estampada. Pelo jeito o menino dormia a sono alto.
O marido era cuidadoso para não acordá-la. Ainda mais agora que estava prenhe. Seria o segundo filho. João contava três anos e era uma criança agitada. Puxara fisicamente a ela. O rosto ovalado, os olhos puxados e a pele cor de cuia. O filho que trazia no bucho, segundo suas contas (ajudada pela experiente parteira Minduca) seria para meados de março. A gravidez correra tranqüila até ali. Era boa parideira, tradição e orgulho de sua família, as mulheres tinham enorme facilidade para pegar barriga e parirem sem maiores complicações. Levantou-se com certa dificuldade devido à protuberância do ventre. Despiu-se e logo vestiu o surrado vestido que ganhara dois anos antes, em uma das idas do marido à cidade. Lavou o rosto na bacia, na água já usada pelo companheiro.
Havia casado há três anos, aos dezesseis de idade. O marido era vizinho de pouca distância. Senhor distinto e trabalhador diziam nas redondezas, uma pena viuvar tão cedo. A esposa morrera de nó nas tripas, uma desgraça visto que haviam ficado sete filhos, idades entre dois e catorze anos. Mas o rodeio no Neco Paranhos fez seus caminhos se cruzarem.
Homem sério e fechado, apesar dos olhares furtivos que dirigia a ela não a abordou sem antes pedir licença a seu irmão mais velho. Econômico nas palavras foi quase direto ao ponto. Lhe observava a algum tempo, sabia da seriedade e honradez da sua família e queria fazê-la esposa e mãe de seus filhos, inclusive os órfãos.Isso a assustou. Era muita responsabilidade para uma menina assumir uma casa e criar tantas crianças, afora os seus que sem dúvida logo viriam. Sabia que os pais a pressionariam para aceitar. Afinal, ali naquele fim de mundo onde ela arrumaria esposo assim? O medo que as meninas que demorassem a casar fossem desvirtuadas pelos peões das vizinhanças ou os tropeiros que por ali cruzassem tornava comum o casamento a partir dos treze anos. Também havia notado o viúvo no velório da esposa. Porte altivo, estatura elevada e um semblante sereno para enfrentar tão difícil situação. Resolveu ser polida, mas não demonstrou interesse pelo homem, o que o fez recuar e abreviar a conversa. Ele reagiu demonstrando uma falsa indiferença, ela que pensasse, pois da parte dele não correria atrás de outra.
As semanas passaram, como ela previra os pais fizeram muito gosto pelo interesse do viúvo e perguntaram por que ela não o havia convidado a aparecer para tomar um mate com eles. Ela desconversava, não admitia largar uma vida sem muitas obrigações para assumir um compromisso pesado para sua pouca idade.
Finalmente quinze dias depois, ele apareceu em sua casa, muito bem vestido. Pediu para ter um particular com seu pai, coisa de poucos minutos, logo o velho lhe dera licença para conversar diretamente com ela. Estava perdida, não sabia o que fazer, não queria decepcionar os pais.
Mas o destino a ajudou. O viúvo contou que sua sogra reivindicara os netos para ela, pois a filha mais nova havia casado e se mudara a pouco e a casa estava “um silêncio só”. A coisa se ajeitou e em poucas semanas, numa cerimônia simples onde o padre viera para celebrar mais três casamentos, se uniram em matrimônio.

15 comentários:

Rogerio disse...

hum...muito boa narrativa...antes os casamentos era a famila que deciddia quem ia casar com a filha...sorte que hj não e mas assim ne rsrsrs

Cererê' disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cererê' disse...

Olha... Não vou falar "noooossa que interessante seu post" ou "uauu, ficou demais seu post" e bla bla bla. Porque não curto muito esse tipo de "história" e taalz. Mas ooolha, você escreve muito bem! Parecia que eu estava lendo João Cabral ou Gregório de Mattos (sem os palavrões, claro, haha). Parabéns!

Tiago Dadazio disse...

AGORA ME MATA HEIN...EAHEAHEAHEA

Bárbara Moreira disse...

ficou muito bom o texto, você escreve bem. :D

Tiago Dadazio disse...

OBRIGADO PELO "GOSTO MUITO DO BLOG"! :D
FICO BEM FELIZ! :D

E AINDA TEMOS QUE FAZR UNS AJUSTES NO TEMPLATE...

MAS VALEU MESMO!

luiz scalercio disse...

bellissimo texto prbns mesmo valeu

g.winme disse...

Estou achando muito interessante os textos, sem brincadeira. Estou seguindo o blog, até.

Abraço

LETICIA disse...

também achei muito interessante o texto, quero volta sempre !
vou seguir tambem =D
BJOS

quando puder passa lá

http://dalelerodrigues.blogspot.com

Tiago Dadazio disse...

PERDEMOS AMIGOS...

Raphaela Benetello disse...

mto bom o texto, parabéns pela escrita e pelo blog!
=D

Paty disse...

Oi! Parabéns pelo texto e pelo blog! Tive a oportunidade de conhecer as missões há alguns anos atrás e foi muito legal!

30 e poucos anos. disse...

Contos, causas e narrativas de um mundão sem fim

Pobre esponja disse...

Parabéns, como comentei antes: sua escrita destoa da medíocridade blogosferica.

parabéns novamente
abç
Pobre Esponja

Thalisson Teixeira disse...

Parabéns cara! ´[otimo blog
acessa la o meu tbm: http://thinformacoes.blogspot.com/
abraço