quinta-feira, 26 de maio de 2011

O mundo soturno do Criador dos Sonhos!



Não era difícil fazer aquele caminho todas as noites. A nublaceira que poderia atrapalhar, na verdade era só parte do contexto. O caminho sabia de cor. Bastava apenas esperar a quietude da madrugada, onde o momento que lhe era mais propício ficava entre as três e seis horas.
Aquela pequena ponte arqueada sobre um pequeno córrego era o portal, se conseguisse atravessar, pronto, estava no inconsciente da pessoa adormecida.
A tarefa daquele dia era leve. Teria que criar todo o cenário para o sonho para um homem de quase setenta anos. Tinha já o perfil do sonho e da pessoa em questão que era extremamente egoísta e avaliava as pessoas pelo dinheiro. O cérebro era extremamente fechado, não em termos de inteligência, embora também tivesse grande limitação no pensar, mas em termos espirituais.O Criador dos Sonhos naquela noite tinha que fazê-lo feliz e não estava contente com a missão. A figura detestável não merecia ter nenhuma espécie de alegria, nem a nível subconsciente. Mas não lhe cabia julgar. Tinha apenas que executar sua tarefa.
Tentou levar pelo lado divertido de criar cenários. Cada pessoa tinha um espelho pronto, um modelo próprio de perfeição e isso parecia ao Criador na maioria das vezes algo extremamente divertido, outras era tão bucólico que tinha vontade de se retirar, mas não tinha como fazer isso depois de infiltrado, só a própria pessoa tinha o poder de encerrar o sonho, mesmo que involuntariamente. Havia coisas terríveis também, se fossem consideradas inomináveis, não seria exagero. Mas fora treinado para isso pelo seu antecessor e lembrou da orientação do mesmo: “Não tenha medo, por mais terrível que sejam as coisas produzidas pela mente destas pessoas, nada pode atingi-lo. No começo vai ser difícil para você criar a imagem de fundo. Crie uma espécie de maquete pronta e faça pequenas modificações de pessoa a pessoa. Mas lembre sempre: não sinta.Não sinta!”
O homem em questão demorou a pegar no sono e geralmente pensamentos de inveja lhe eram os mais comuns no estágio de pré-sono. Naquela noite levantou várias vezes para ir ao banheiro e beber água. A mulher não ficava atrás em mesquinharia e era extremamente simpática às práticas de magia pagã que buscava prejudicar quem eles erradamente consideravam “inimigos”. Definitivamente um casal feito um para o outro pensou o Criador, mas logo se corrigiu. Não cabia a ele julgar.
O cenário que tinha que produzir para o homem se resumia a um galpão onde um fogo de chão assava lentamente uma costela de ovelha, as luzes do candeeiro iluminavam vários casais que dançavam músicas tradicionalistas do sul. Os corpos se movimentavam frenéticos à marcação das canções. Os rostos tinham de ser familiares ao homem, embora ele não os reconhecesse por nomes. A mulher não podia estar ali. Ele estava sentado em uma mesa lateral só olhando a movimentação. Um conhecido, que teria que ser menos favorecido financeiramente, escutava com atenção as bravatas e gabolices. A carteira estava em cima da mesa e notas de dinheiro escapavam de dentro. Várias garrafas de cerveja já vazias, eram freqüentemente trocadas por um garçon exclusivo. Outros homens iam chegando à mesa onde ele centralizava as atenções. A história em questão era sobre como pagou à vista seu carro meio uso. O vocabulário era recheado por expressões gaúchas que caíram em desuso, mas ali, naquele agradável lugar era fluente.
Um casal jovem, vestidos a caráter com a indumentária gaúcha, passou dançando rente a mesa. Não deviam ter mais que vinte e poucos anos. No giro da dança a moça piscou o olho para o homem na mesa, que comentou baixo junto ao ouvido do companheiro mais próximo:
“Essa gosta de homem criado. Vou esperar esse xiru ir ao banheiro e vou convidar ela para dançar.”
O Criador dos Sonhos olhava tudo com olhos divertidos, mas lembrou que não devia sentir.
Ele buscou um lugar onde tivesse ampla visão, do homem, da mesa e todo o ambiente, o cheiro do churrasco chegou até ali e era bom. Aguardou ansioso para que aquele sonho logo chegasse ao fim e pudesse retornar pela estrada nevoenta.

5 comentários:

Andre Mansim disse...

Amigo que texto bom viu! Meio misterioso e com essa musica de fundo ficou legal demais! Parabens, vc escreve muito bem!

Aparece lá no meu blog pra conhecer!

Paulo Sousa disse...

Bom os texto,vc escreve bem,bom acho que esse é o 2 texto que leio do seu blog,e como o primeiro achei bem interessante!

José Sérgio Bechler disse...

Os sonhos sempre dão material pra belos textos. Tá aí um exemplo disso! Bom trabalho, Fábio!

Thunderbirdsampa disse...

Clima,isso tem de sobra aqui cara.Continuo me surpreendendo com a sua capacidade de (re)criar ambientes na tenue linha realidade/sonho e parece que isso vem se tornando uma marca da sua escrita. Meu,achei demais mesmo.

ઇ‍ઉLya disse...

Lindo que vc escreve parece que vc se entrega de corpo e alma a leitura ainda mais no que vc escreve... parabéns!