segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Em carne viva XXII ! ("O futuro sempre está começando agora." Mark Strand)




Santo Ângelo, 03 de dezembro de 1980.

Deixo esse relato em forma de carta, para quem algum dia, possa se interessar.

Estou com 68 anos e sempre fui uma mulher forte. Minha ascendência italiana e o trabalho duro, desde a infância, ajudando meus pais nas tarefas comuns do campo, me fizeram resistente às intempéries do tempo e da vida. Até gripe, era raro eu pegar.

Tenho dificuldade de me concentrar. Talvez esteja ficando caduca. Algumas crianças da vizinhança brincam e gritam junto à minha janela. Elas, ao menos, não têm medo de mim. Logo, suas mães, histéricas, se darão conta e começarão a berrar para que se afastem da minha casa.

Já estou acostumada com isso. Essa maldição me acompanha desde 1959.

Eu casei aos vinte anos, com Antônio Polozzi , que tinha um bolicho na entrada do distrito Comandaí. Ele era bem mais velho e foi seu segundo casamento. A primeira esposa, de apelido Dita, conheci. Eu era criança e ela foi amiga da minha mãe. Coitada, morreu de congestão. Eu lembro que tinha medo de chegar perto do caixão, no velório e o pai me obrigou a olhar para a morta. Não tiveram filhos.

Polozzi, em pouco tempo, começou a arrumar algumas mulheres e as levava para morar junto. Ele buscava aqui ou de alguma cidade vizinha. Aquele tipo de mulher as quais tinha predileção, chinas. Elas não ficavam mais que dois ou três meses e após algumas surras, o abandonavam.

Após algumas tentativas frustradas de arrumar uma nova companheira que consentisse com seu jeito brutal, aconselhado por gente da vila, resolveu que teria de ser uma mulher de lá. O pai e a mãe viram nele um bom partido, afinal seu negócio era forte, e nem todos os moradores tinham como ir até a cidade para comprar mantimentos. Eu já os odiei por isso, afinal eu tinha catorze anos, mas depois de algum tempo, vi que não havia como condená-los por isso. Eles atinavam que eu estaria com uma vida garantida, seria dona também do único armazém das redondezas. Minhas duas irmãs mais velhas já tinham se casado, porém, nenhuma com um marido com as condições financeiras de Antônio Polozzi. O casamento com pouca idade era muito comum naquela época. As famílias tinham muito medo que suas moças não arrumassem casamento e ficassem solteironas.

Meu casamento foi um evento que trouxe gente de longe. Polozzi não poupou dinheiro na festa, para me impressionar. Ele sabia que não exercia nenhuma atração física sobre mim. Na verdade, eu tinha sentido algo somente pelo filho do seu Bastião, o Eduardo. Tinha um ou dois anos a mais e sempre me cortejava na escola. Eu ficava sem jeito e não tinha coragem de fitá-lo nos olhos. Provavelmente, se Polozzi não tivesse cismado comigo, eu poderia ter vindo a namorar com Eduardo, que acabou casando com minha prima Neiva.

Foi muito pouco gentil comigo na primeira noite, mas eu já esperava isso. Nos primeiros anos, não deixava que eu atendesse no balcão “esses vadios ficam te cobiçando”, nem aparecer para falar alguma coisa, eu podia.

Em pouco tempo, engravidei da minha primeira filha.

Meus pais morreram em um intervalo de tempo curto. Seis meses. Ele, de infarto e ela de um câncer no estômago. Embora já casada, um sentimento de solidão se abateu sobre mim. Meu marido não era o tipo de homem que escuta o que a gente diz. Nossa relação era um jogo, ele perguntava algo e eu respondia, eu perguntava algo, às vezes, ele respondia, se estivesse disposto.

Era uma vida solitária, embora eu fosse bem relacionada na comunidade. Com o passar do tempo, Antônio não fez mais conta e passei a ajudá-lo no balcão. Até certo ponto, foi bom, pois comecei a ter com quem falar, comentar os fatos ocorridos e o dia a dia da vila. Como meu marido previra, eu notava os olhares de cobiça dos homens que vinham beber e ficavam pelos cantos acompanhando meus movimentos. No começo tive um sentimento de repulsa, afinal não era uma falta de respeito ficar de olho em mulher casada?

Depois que minha segunda filha nasceu Polozzi se tornou ainda mais distante e agressivo. Começou a beber muito, ausentar-se com frequencia,indo para a cidade, de onde só voltava tarde da noite. Geralmente eu estava dormindo e ouvia os barulhos das coisas que ele derrubava pelo caminho. Não tinha com as filhas nenhum gesto de carinho. Comigo, eu já nem sentia falta, ou se sentia, procurava colocar minhas energias em coisas produtivas. Resolvi fazer cucas e pães, que logo caíram no gosto dos moradores que se tornaram meus fregueses assíduos. Eu procurava guardar o que ganhava, pois Polozzi nada comprava de vestimentas para nós. As meninas andariam maltrapilhas se uma tia não trouxesse roupas usadas de uma priminha mais velha para elas. Ele sempre achava e sumia com o dinheiro “usei para comprar produtos na cidade”, dizia.

Alguns homens se insinuavam constantemente, claro, sabendo das ausências do meu marido e um dia, após Polozzi sair para a cidade, o Neco, filho da um sujeito ordinário, me pediu fumo em corda, como não havia mais na prateleira, disse para ele esperar, pois eu iria lá dentro buscar. As meninas ainda dormiam. Quando puxava a mercadoria de cima de um armário na cozinha, senti o hálito morno do homem no meu pescoço. O Neco me agarrou por trás e me levou até o quarto, onde não ofereci resistência, Deus que me perdoe.

CONTINUA

6 comentários:

marjoriebier disse...

Depois de um tempo com-ple-ta-men-te afastada da net, eis que volto.

E eis que gosto.

Vou ler com calma.

besos

Wellington disse...

Opa! A história estava triste até que chega o Neco e esquenta o clima até para o leitor aqui que achava que o texto era só para lágrimas. ...rsrsrs... Muito bom! Gostei!

Aguardo pelo próximo episódio! =)

Abraços!

http://neowellblog.wordpress.com/super-blogs/parcerias/

Lou James disse...

Salve Fábio.
Essa "confissão apócrifa" nos prende a atenção.
Muito bom! Como sempre...

Abç man!

roberyk disse...

Li e reli e não acreditei no que li. Baita safadeza a tua. Que corte espetacular que deste meu velho. É de cair o queixo e os butiás dos bolsos. Quemn diria que a beladonna era chegadinha no Neco. Putz!
Agora tirei o chapéu pra ti, vai sacanear lá no Comandaí.

Eunisia disse...

Fábio,
criatividade no texto!
Sempre que puder retorno.
Abs,
Eunísia

José Sérgio Bechler disse...

Bah! Recém agora me dei conta que a parte XXII já estava disponível. A coisa tá andando rápido em Fábio! hehe! Gostei, o corte temporal e a narrativa como carta. Cara, me lembrou um livro que se tu não conhece vale à pena investir. É "À mão esquerda", do Fausto Wolff, que por sinal nasceu aqui na cidade e o livro todo se passa aqui na região, meio que no estilo dessa rua história. Muito bom mesmo! Vale à pena conferir.
Abraço!