terça-feira, 27 de outubro de 2009

O início do fim! O extermínio



Fera sanguinária ou gente? No que aquela caçada desumana havia transformado o praça Antônio Machado? O pequeno espelho quebrado que usava para fazer a barba em volta das brasas da fogueira naquele extremo sul das Américas não respondia a pergunta.
Por que continuar ali era outra indagação recorrente. Assistiu a maioria da tropa se transformar em uma horda de assassinos e horrorizou-se com isso. A situação saíu do controle e aquilo parecia a ante-sala do inferno.
A dúvida lhe atordoava. Não conseguia compreender como aqueles rapazes recém saídos da puberdade, como ele também, dóceis e tímidos antes do início das ofensivas, tornavam-se bestas cruéis quando conseguiam capturar algum índio que vagava perdido naqueles capões. Os nativos eram grupos cada vez mais esparsos. Estavam subjugados e não ofereciam nenhuma resistência. Então, por que tamanha crueldade?
Estava cansado. Dois anos de muitas manobras, poucas batalhas e andanças sem fim. Tinha vinte e dois anos, mas sua alma estava envelhecida. Havia presenciado muito mais coisas que os velhos de Douro, sua região natal.
A exaustão era completa. Não via a hora de embarcar de novo para Portugal. Ainda mais agora, quando percebeu que a promessa do ouro dos padres não se concretizaria.
Vinha tendo pesadelos frequentes. As faces tomadas de pavor dos pequenos indios, ele com uma enorme cimitarra na mão. Não. Não era ele. Era o soldado Gusmão. O Gusmão não havia morrido de tosse brava há algumas semanas? Acordava com o coração aos pulos e o corpo dolorido. Precisava acabar com aquela rotina de caçadas, andanças sem fim e morte. Aliás o cheiro da última havia se impregnado nele. Não era a morte branca e sim a morte índia. Uma sensação de culpa desabava com o peso do chumbo sobre ele.
A mãe a entoar doces canções de ninar à beira do catre. A lealdade ao Rei. A sua vida estava fragmentada. Lembrou do plano de dar ao primeiro filho o nome do avô. Não! Não teria filhos. Seria impossível olhar a criança sorridente sem lembrar o rosto dos pequenos nativos que vira morrer. Ele desceu ao mais baixo lodo.
Naquela alvorada fria de 1756, o praça Antônio Machado olhou o céu já limpo de estrelas. Pelo menos elas não testemunhariam o que ainda viria no decorrer da manhã...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Um estranho na multidão!




Os rostos são estranhos. Talvez por eu ser um estranho. Passam rapidamente por mim. Curiosamente procuram um contato visual e encontram o obstáculo do meu impenetrável óculos escuros. A calçada é estreita para o enorme fluxo de pessoas. Workholics apressados fazem malabarismos improváveis para ganhar tempo e dianteira dos demais. Filas quilométricas saem das lotéricas. Máquinas de sorvetes e expressões ansiosas aguardam a vez. Artesãos ambulantes sentados no meio fio exibem suas obras em tapetes estendidos no chão.
O fato de eu não gostar do olho no olho não denota falsidade. A viagem é outra. Observar e estar protegido de um possível intruso. Meu olhar poderia me denunciar? É bom não arriscar.
O velho sentado em uma dessas cadeiras de abrir na esquina do banco me puxa pela camiseta "tenho todo tipo de ervas e chás para qualquer enfermidade,filho!". Sorrio sem responder. E as doenças da alma, o senhor sugere o quê?
Apresso o passo. Os primeiros pingos de chuva na abafada tarde de verão se precipitam sobre a multidão. Me abrigo debaixo de uma marquise da loja de eletrônicos. Sou espremido contra o vidro da vitrine por pessoas tentando não se molhar. O jeito é esperar Olho para dentro da loja e vejo um gestual vendedor fazendo uma explanação provavelmente sobre as vantagens que aquele casal do interior vai ter em adquirir a reluzente máquina de fazer pão. Um corpulento senhor pisa no meu pé direito. Porra! Foi-se a minha unha. "Desculpe!". Resolvo continuar minha andança, mesmo com chuva. Agora os poucos que se aventuram a confrontar os pingos agora gelados me olham com mais curiosidade. Ah, os óculos escuros! Sinto muito, mas não estou preparado para o mundo e suas cores reais. O cabelo gruda na minha testa, a camiseta nas costas.
Quanto vale uma vida normal? A vida como a que essas pessoas que se assustam com uma chuva revigorante dessas? Ou que vivem uma constante disputa contra um adversário que sequer conhecem? Bem, eu já não luto mais. Decidi trazer o adversário para o meu lado. Observo e isso me basta. "Olha o arco-íris!" . Não enxergo por causa dos óculos escuros e as cores são muito fortes...

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Banquete com mendigos!



Eles foram chegando aos poucos. Uns vinham solitários, outros em duplas, desciam das velhas carroças puxadas por animais muito maltratados.
Suas cabeças eram enormes, desproporcionais aos corpos esquálidos, que nadavam nas roupas extremamente imundas. Os homens usavam cartolas amassadas, rodopiando bengalas em um andar à Carlitos. As mulheres, com enormes coques no alto da cabeça, o cabelo empastado de óleo, os vestidos rasgados, de um colorido desbotado pela exposição ao tempo, faziam o par de um dueto desafinado, mesmo tendo emergido da mesma lama.
Tentavam andar em sintonia, subir os cem degraus, onde um mordomo afetadamente polido aguardava para conduzí-los ao enorme salão onde o banquete estava posto para cem pessoas. Muitos, debilitados por doenças infecciosas adquiridas na podridão fecal das sarjetas, traziam no colo crianças pequenas cobertas de icterícia. Os cães ladravam e se pegavam em um embate medonho, antevendo a disputa pelos restos de comida.
O tapete outrora vermelho, tornara-se marrom devido à sujeira que traziam impregnada em cada poro. Muitos não suportaram a longa escalada e caíam ora arrastando escadaria abaixo seus pares, causando uma gritaria louca que ecoava no vale de chão estéril em que o imponente castelo se localizava.
O cheiro acre e fétido, exalado de seus corpos se misturava ao odor do assado, enchendo suas bocas de uma saliva transbordante aos lábios rachados. Os trinta que conseguiram chegar ao topo, junto ao enorme portão com grades de um metal forjado em eras longínquas, foram instruídos a não levantarem as tampas das brilhantes e ovaladas travessas de ouro puro. Aguardassem o anfitrião que logo apareceu totalmente desprovido de vestimentas. O corpo frágil, o cabelo longo e esbranquiçado, a pele enrugada como que solta sobre os ossos. O diminuto orgão sexual caído sobre o enorme saco escrotal, que foi cuidadosamente ajeitado de modo ao ancião não sentar por sobre aquela anormalidade. Olhou para o mordomo, que anunciou o início daquele dantesco espetáculo. Podiam se servir. O barulho metálico dos talheres lembrava os preparativos para uma batalha medieval onde os sobrevinentes penavam em anos de abandono. Levantaram as fumegantes tampas, que lhes queimavam a endurecida pele das mãos, e deram com as vasilhas completamente vazias.
O anfitrião os observava com os dedos entrelaçados, servindo de suporte para a cabeça. A fisionomia matreira e divertida, principalmente devido aos olhos miúdos e muito astutos, abrangia a todos. Os convidados o olhavam, sem entender nada e com uma expressão ridícula, de decepção, estampada em cada rosto.
O velho explodiu em uma gargalhada histérica, que retumbou muito tempo por todos os recônditos do reino.