
Fera sanguinária ou gente? No que aquela caçada desumana havia transformado o praça Antônio Machado? O pequeno espelho quebrado que usava para fazer a barba em volta das brasas da fogueira naquele extremo sul das Américas não respondia a pergunta.
Por que continuar ali era outra indagação recorrente. Assistiu a maioria da tropa se transformar em uma horda de assassinos e horrorizou-se com isso. A situação saíu do controle e aquilo parecia a ante-sala do inferno.
A dúvida lhe atordoava. Não conseguia compreender como aqueles rapazes recém saídos da puberdade, como ele também, dóceis e tímidos antes do início das ofensivas, tornavam-se bestas cruéis quando conseguiam capturar algum índio que vagava perdido naqueles capões. Os nativos eram grupos cada vez mais esparsos. Estavam subjugados e não ofereciam nenhuma resistência. Então, por que tamanha crueldade?
Estava cansado. Dois anos de muitas manobras, poucas batalhas e andanças sem fim. Tinha vinte e dois anos, mas sua alma estava envelhecida. Havia presenciado muito mais coisas que os velhos de Douro, sua região natal.
A exaustão era completa. Não via a hora de embarcar de novo para Portugal. Ainda mais agora, quando percebeu que a promessa do ouro dos padres não se concretizaria.
Vinha tendo pesadelos frequentes. As faces tomadas de pavor dos pequenos indios, ele com uma enorme cimitarra na mão. Não. Não era ele. Era o soldado Gusmão. O Gusmão não havia morrido de tosse brava há algumas semanas? Acordava com o coração aos pulos e o corpo dolorido. Precisava acabar com aquela rotina de caçadas, andanças sem fim e morte. Aliás o cheiro da última havia se impregnado nele. Não era a morte branca e sim a morte índia. Uma sensação de culpa desabava com o peso do chumbo sobre ele.
A mãe a entoar doces canções de ninar à beira do catre. A lealdade ao Rei. A sua vida estava fragmentada. Lembrou do plano de dar ao primeiro filho o nome do avô. Não! Não teria filhos. Seria impossível olhar a criança sorridente sem lembrar o rosto dos pequenos nativos que vira morrer. Ele desceu ao mais baixo lodo.
Naquela alvorada fria de 1756, o praça Antônio Machado olhou o céu já limpo de estrelas. Pelo menos elas não testemunhariam o que ainda viria no decorrer da manhã...
